O erro doméstico mais grave de Donald Trump

15 de Agosto de 2017
Por Henry Galsky “Quando um ônibus espacial explode, um estudante entra atirando numa escola, um terrorista joga um avião contra um prédio e um furacão inunda uma cidade – quando este tipo de evento acontece – recai sobre o presidente (a responsabilidade de) expressar algo sobre a alma da nação”. Este é um trecho do texto do Michael Gerson no Washington Post. O parágrafo define bem não o que Donald Trump fez, mas o que deveria ter feito no primeiro momento ao se posicionar sobre a marcha nazista e as mortes que seus manifestantes causaram no estado americano da Virginia. 

Por mais que, nesta segunda-feira, o presidente tenha volta atrás ao decidir mostrar revolta e nomear diretamente os movimentos nazistas e de supremacia branca como culpados pela violência, é difícil apagar as marcas da fria reação inicial aos acontecimentos em Charlottesville. 

O primeiro posicionamento de Trump sobre os acontecimentos foi tão absurdo porque ressalta o abismo entre o ocupante atual da Casa Branca e a maior parte da população americana. Ao dizer que a violência “veio de muitos lados”, o presidente americano chutou na arquibancada um pênalti sem goleiro. Condenar a violência causada por grupos nazistas dentro do território americano contra população americana certamente seria a tarefa mais simplória e óbvia de todo o seu governo (e ainda faltam três anos para o fim do mandato). Mas o presidente preferiu a cautela (ou covardia) ao optar por não ferir os sentimentos de parte de seu eleitorado. 

A situação se tornou mais um constrangimento em Washington; por que proteger os movimentos de supremacia branca se não há identificação ou nada a temer? Se a ideia foi não demonstrar traição a parte do eleitorado de classe média branca trabalhadora, como explicar ao restante do país esta estratégia? Ao não condenar explicitamente a supremacia branca, racista e antissemita, o governo se enrola ao levantar a hipótese de que está em dívida com a chamada ALt-Right (que nada mais é do que, como de costume, um nome novo para o velho preconceito). 

A Casa Branca tentou mostrar um distanciamento descabido para a gravidade da situação. Quando um motorista atropela manifestantes contrários ao nazismo, não há dúvidas sobre qual lado deve ser protegido e qual deve ser denunciado. Quando manifestantes marcham com suásticas e agridem opositores, não é apenas grave, mas traição à história americana. 

Se Donald Trump tentou proteger aliados já pensando nas eleições de 2020, ele cometeu no mínimo um erro grave de avaliação. Sua administração acabou por criar mais um entre tantos pontos de vulnerabilidade a um governo que a cada dia aprofunda e multiplica suas crises.