Irã pode ser um dos grandes beneficiados na Síria

22 de Agosto de 2017
Por Henry Galsky Talvez um dos grandes vencedores depois do fim da guerra civil síria venha a ser o Irã. Nas frentes diplomáticas, a Rússia está disposta a proteger seus fiadores regionais, e certamente o regime iraniano é um dos principais aliados no projeto de alteração do equilíbrio e do status quo promovido por Moscou no Oriente Médio.

O problema para russos e iranianos é que esta empreitada já enfrenta resistências, como não poderia deixar de ser. Além de Israel, preocupado com a presença do Irã em sua fronteira norte, as monarquias sunitas do Golfo Pérsico se opõem a Teerã – a disputa entre esses países e a república islâmica representa o principal foco desestabilizador regional, a cisão entre sunitas e xiitas e suas muitas projeções geopolíticas por todo o Oriente Médio (assunto recorrente por aqui). 
Por tudo isso, a corrida para vencer embates e conquistar aliados em diversas frentes se intensifica a cada dia. 

Reportagem do Haaretz informa que agora é o Egito que busca relevância na Síria, atuando inclusive como mediador em negociações de cessar-fogo no país. A presença egípcia na Síria é encarada de forma positiva pelo chamado eixo sunita, composto, além do próprio Egito, por Jordânia e pelas monarquias do Golfo Pérsico. 

Este grupo de países pode ser resumido pela sua organização mais formal, o chamado Gulf Cooperation Council (GCC, em inglês) cujos membros são Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait, Omã, Arábia Saudita e Catar. A situação do Catar é muito específica e o emirado não pode mais ser encarado como parte desta aliança, pelo menos até que o jogo mude novamente.

De maneira muito discreta, a visão pragmática tem colocado do mesmo lado adversários históricos. Tanto Israel quanto as monarquias do Golfo e mais Egito e Jordânia interpretam o projeto de expansão e liderança regional do Irã como sua principal fonte de preocupação em curto prazo. Por isso, minimizar os ganhos que os iranianos têm obtido na Síria é considerado objetivo urgente. 

Se inicialmente os países se contrapunham a qualquer solução que mantivesse o ditador Bashar al-Assad na presidência do país, novamente o olhar pragmático tem deixado evidente que isso está distante de acontecer. Com o apoio da Rússia, do Hezbollah, do Irã e agora da Turquia, a tendência é que a solução encontrada por Moscou prevaleça. 

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas deu ainda mais força às expectativas de Vladimir Putin. Por mais que a visão internacional do presidente russo seja alvo de protestos por parte dos israelenses, a atuação de Trump até agora não permite concluir que Washington irá conter o projeto mais amplo que seu aliado no Kremlin imaginou para si e seus parceiros regionais. 

Desta maneira, as ambições do Irã também parecem bem encaminhadas, a ponto inclusive de, igualmente de maneira pragmática, Teerã se alinhar a Ancara em suas disputas particulares. Irã e Turquia enxergam no nacionalismo curdo ponto concreto de ameaças domésticas. Assim, os dois países já pensam detalhes de ofensivas conjuntas contra a minoria. 

Isso deve acontecer nas montanhas de Qandil, exatamente na fronteira entre Irã e Iraque e onde se concentram as atividades do Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK), grupo militar curdo no Irã e associado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que representa o principal foco de instabilidade ao governo do presidente Recep Tayyip Erdogan na Turquia. No país, os curdos compõem entre 15% a 20% da população. No Irã, entre 11% a 15%.
 
A complexidade é tamanha que, no projeto de estabilização da Síria, todos esses fatores têm sido considerados. E, como os russos precisam premiar seus aliados, os curdos acabaram por entrar na conta. Na complicação regional, é sempre válido mencionar que são justamente os grupos armados curdos – as Unidades de Proteção do Povo (YPG) – que atuam com apoio dos EUA na linha de frente do combate ao Estado Islâmico.