A nova estratégia americana no Afeganistão

25 de Agosto de 2017
Por Henry Galsky De certa forma contrariado, o presidente Donald Trump anunciou a permanência de ao menos 8.400 combatentes americanos no Afeganistão, uma vez que, 16 anos após a invasão do país pelos EUA (e três mandatos presidenciais depois), o território ainda permanece em disputa, especialmente entre as forças armadas americanas e terroristas do Talibã. O incômodo da decisão está relacionado às promessas de campanha, principalmente ao slogan “America First” a partir do qual o então candidato denunciava as empreitadas internacionais como fonte permanente de gastos a drenar os impostos dos cidadãos americanos. 

A Casa Branca fez questão de deixar claro que o presidente foi convencido pelos generais de que a permanência no território era necessária de forma a evitar que o esforço empreendido ao longo de todo este século fosse perdido e o território pudesse ser retomado pelo Talibã e pela Al-Qaeda. Diante deste entendimento, Trump foi a público justificar a decisão e expor mais uma vez sua visão muito particular sobre política externa. Em mais um capítulo repleto de novidades, o presidente optou por vincular a estratégia militar internacional do país a trocas comerciais, tornando evidente que a linha a separar o cargo público que exerce e sua história de vida empresarial é muito tênue, quase invisível.
 
No discurso, houve espaço para a exposição de como ele define a vitória que encerraria a guerra no Afeganistão:

“Nossas tropas vão lutar para ganhar. A partir de agora, vitória vai ter uma definição clara: atacar nossos inimigos, eliminar o Estado Islâmico, esmagar a Al-Qaeda, prevenir o Talibã de tomar o país e impedir ataques terroristas contra americanos”. 

Esta definição torna a possibilidade de vitória real muito improvável, além de esvaziar o histórico de estratégia internacional dos EUA. Resumir a política externa americana ao combate direto contra inimigos é caminho contrário ao seguido por todos os seus antecessores, não apenas Barack Obama (contra quem Trump, como um Dom Quixote, continua a lutar até hoje). Não que derrotar grupos terroristas seja uma novidade ou objetivo ignorado pelos demais presidentes, mas todos imaginavam um cenário capaz de incrementar a realidade local justamente de forma a evitar que, no dia seguinte ao encerramento do confronto, a total falta de perspectivas se transformasse em território fértil para o nascimento de novos inimigos. 

Outro aspecto importante do discurso sobre o Afeganistão tem a ver com as alianças regionais americanas até hoje. O presidente mudou o eixo ao fortalecer a Índia e denunciar o Paquistão. 

“É hora do Paquistão demonstrar seu comprometimento com a civilização, ordem e paz (...). Nós não podemos mais permanecer em silêncio sobre os portos seguros (concedidos pelo) Paquistão às organizações terroristas”. 

A denúncia ao Paquistão faz sentido sim, mas Trump faz questão de associar o fracasso do país no combate ao terrorismo ao fortalecimento das relações entre EUA e Índia, inimiga histórica dos paquistaneses. Mais do que isso, é parte do projeto mais amplo desta administração americana de questionamento das relações internacionais e do sistema de alianças forjado por sucessivos presidentes americanos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com olhar empresarial, Trump prefere não enxergar quaisquer benefícios neste complexo sistema internacional mantido por todos os presidentes do país até agora e está focado no corte de gastos. 

Para Trump, assim como já fez ao apresentar seu olhar sobre a Otan, os EUA arcam com todos os custos, enquanto os aliados apenas “usufruem” do benefício pago pelos contribuintes dos EUA. A insatisfação com o Paquistão está relacionada também a este pensamento fundamental do diretriz atual em Washington. E de forma a deixar isso claro acirrou ainda mais as rivalidades entre Índia e Paquistão. 

Aos indianos, apesar das críticas de Trump aos paquistaneses, o presidente também fez cobranças. 
“A Índia ganha bilhões de dólares em comércio com os EUA e nós queremos que eles nos ajudem mais no Afeganistão, especialmente nas áreas de assistência econômica e desenvolvimento”. 

A Índia já é o principal doador regional no Afeganistão. No caso do relacionamento comercial com os EUA, os americanos importaram, apenas em 2016, 72.8 bilhões de dólares. Trump está vinculando este sucesso indiano – e o acesso ao mercado americano – a uma participação mais assertiva no Afeganistão. 

O alijamento do Paquistão mostra a face de gestão empresarial do presidente americano. No Afeganistão e na parte mais nevrálgica do sudeste asiático, Trump age como um chefe que em determinados ambientes corporativos opta por jogar um funcionário contra o outro em busca de produtividade. No entanto, no caso de Índia e Paquistão, os “funcionários” estão em rota de colisão desde a fundação da “empresa”. O aprofundamento desta rivalidade não representa qualquer garantia de sucesso.