Catar abraça de vez o Irã

29 de Agosto de 2017
Por Henry Galsky A reaproximação formal entre Irã e Catar é mais uma rodada do jogo regional que está alterando o equilíbrio de forças entre sunitas e xiitas. Em 5 de junho deste ano, Arábia Saudita, Barein e Emirados Árabes Unidos (EAU) decidiram isolar o Catar a partir de denúncias de que o país financiava terroristas e se aproximava dos iranianos. A ideia era mesmo a de sufocar o emirado, cortando suprimentos alimentícios, impedindo transações comerciais e fluxo de entrada e saída de pessoas, até porque sua única fronteira terrestre é justamente com a Arábia Saudita.

O movimento ganhou corpo não apenas pelo dano que a estratégia poderia causar, mas também porque parece ter sido fruto de uma interpretação muito específica da visita de Donald Trump em 20 de maio à Arábia Saudita, quando o presidente americano deixou evidente que abraçava plenamente a narrativa do eixo sunita. Em parte pela chancela americana, em parte para testar a nova administração em Washington, as monarquias sunitas tomaram a decisão de pôr em prática o plano de isolamento. O objetivo não era apenas realinhar a política externa independente do Catar, mas estabelecer uma espécie de código de conduta definitivo.

O propósito era impedir qualquer relação entre Catar e Irã, inclusive porque o Gulf Cooperation Council (GCC, em inglês) – composto por Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait, Omã, Arábia Saudita e Catar – encara a rede de notícias catari Al-Jazira como ameaça comum a todos esses países. Tanto que exigiu o fechamento do canal de televisão como parte da lista de demandas que deveriam ser cumpridas até o dia 3 de julho passado em troca do fim do bloqueio. O governo de Doha não acatou as exigências e certamente será expulso do GCC em breve.

O Catar sentiu o golpe desta grande movimentação regional; os bancos do país perderam 7,5 bilhões de dólares em retiradas de clientes estrangeiros, e as importações caíram 38% em junho. A lista enviada pelo GCC para o restabelecimento de relações é complexa e exige na prática não apenas que o país abra mão de sua soberania, mas o fim de sua principal fonte de receitas, o campo de gás South Pars-North Field (foto) operado em conjunto justamente com o Irã.

Está claro que a ideia não era realinhar o Catar, mas de fato expulsá-lo do bloco de países sunitas sobre o qual tratei tantas vezes por aqui.

O que aconteceu a partir disso seguiu um caminho até bastante óbvio e que culminou com o restabelecimento de relações plenas entre Catar e Irã; os iranianos aproveitaram a oportunidade e estreitaram a parceria com Doha, fornecendo alimentos e rotas alternativas de comércio e tráfego aéreo. Com isso, Teerã ganhou mais um aliado importante em seu propósito de estender presença e poderio internacional entre o Golfo Pérsico e as fronteiras com Israel. Como parte do eixo xiita (e aí é importante observar que cada vez mais esses termos estão distanciados de seu propósito religioso original), o Irã agora tem como parceiros Rússia, Iraque, Hezbollah, Hamas, Turquia, Catar e a minoria xiita Houthi que combate a Arábia Saudita no Iêmen.

Se a situação parece estar muito clara no Oriente Médio a partir de todas essas movimentações, vale dizer que a decisão do GCC de isolar o Catar e testar o comprometimento de Donald Trump por enquanto trouxe apenas prejuízo ao grupo e um ganho concreto para as ambições regionais da República Islâmica do Irã.