Como a estratégia do Irã está mudando o Oriente Médio

01 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky Foto: Os ministros das Relações Exteriores de Irã e Turquia, respectivamente Mohammad Javad Zarif e Mevlüt Çavuşoğlu

O novo Oriente Médio imaginado pelo Irã está saindo do papel e se transformando em realidade. A estratégia de expansão e alteração do equilíbrio de forças está em funcionamento pleno. Basta conectar os pontos. Os iranianos têm sido muito habilidosos por algumas razões: entenderam a nova configuração política global muito antes dos demais atores e também conseguiram aliados a partir de oportunidades que têm surgido ao longo do tempo. 

O ponto fundamental está relacionado ao programa nuclear. Constituído como parte deste esforço regional de alteração de forças e estabelecimento hegemônico, o Irã conseguiu reorganizar-se mesmo depois das sanções ocidentais. Se o projeto nuclear tinha como objetivo evidente a adesão ao clube dos países detentores de arsenal atômico, depois da aproximação com o ocidente e do acordo de abertura a inspeções periódicas, a função das usinas na estratégia regional do país foi revista.  Vejam bem, a função deste grande aparato tecnológico foi revista, mas não seus objetivos regionais. É importante fazer esta observação porque são questões bem distintas. 

O Irã entendeu corretamente que se o programa nuclear representa um aspecto evidente de fortalecimento de suas posições, ele também é um ponto de vulnerabilidade. Num ambiente em que construiu inimigos poderosos (Arábia Saudita, os demais membros do eixo sunita e Israel com ou sem o apoio dos EUA), proceder com a busca por arsenal atômico sem qualquer concessão certamente levaria o país a enfrentar – talvez de forma precipitada – exércitos mais poderosos que o seu. E a derrota quase certa colocaria fim aos planos estratégicos de médio e longo prazos. 

E aí Teerã deu o pulo do gato. Cedeu aos anseios da comunidade internacional – e principalmente dos EUA – e assinou o acordo sobre seu programa nuclear em julho de 2015. Em vigor há mais de dois anos, é preciso dizer que os iranianos têm cumprido o que foi combinado. Com isso, o país afastou por prazo indeterminado qualquer possibilidade de ataque a seu território. 

O Irã perdeu a possibilidade de obtenção de arsenal atômico no curto prazo (mas não em médio), entretanto, em compensação, passou a costurar com empenho suas alianças regionais. Mais ainda, iniciou um relacionamento estreito com a Rússia desde que o país decidiu intervir militarmente na Guerra Civil Síria, em setembro de 2015 (portanto, dois meses após o acordo sobre o programa nuclear do Irã). A aliança com a Rússia pela manutenção de Bashar al-Assad permitiu aos iranianos negociar a presença na Síria após a o fim da guerra civil. Com isso, além da aliança ainda mais próxima com Assad, ganharam a confiança da Rússia e a possibilidade de estabelecer bases no território sírio. 

Se num primeiro momento havia acusações que partiam mesmo de outros atores regionais em relação aos atos de violência (inclusive o uso de armamento químico contra os próprios civis) cometidos pelo regime de Assad com a complacência russa, a situação hoje é muito diferente. A fragilidade dos civis sírios e suas trágicas histórias pessoais não foram apagadas, mas há um silêncio pragmático; a guerra civil está chegando ao fim, a estratégia russa, síria, iraniana e do Hezbollah deverá sair vencedora e, portanto, já se imagina o dia seguinte. E quando isso acontecer é muito provável que Bashar al-Assad permaneça no cargo de presidente do país. 

O jogo proposto pelos iranianos e suas apostas foram igualmente vencedoras: o cumprimento do acordo reintroduziu o país na comunidade internacional especialmente sob o aspecto econômico e afastou a possibilidade de um ataque militar em curto prazo; a aproximação com a Rússia deu certo e, para completar, o eixo do qual o país é um dos protagonistas ganhou dois atores de peso a partir da miopia do eixo sunita liderado pela Arábia Saudita: a Turquia, cujo foco da política externa é impedir a criação de um Estado curdo, passou a contar com auxílio iraniano neste propósito e, assim, Ancara pulou de vez no barco do eixo xiita (apesar de sua população ser majoritariamente sunita). 

O Catar, depois do bloqueio e isolamento empreendidos pelo eixo sunita, também mudou de lado, apelando ao Irã que lhe estendeu a mão. E assim, o Oriente Médio mudou de vez, transformando-se num ambiente onde a Rússia dá as cartas, mas é o Irã quem usufruirá de benefícios no longo prazo.