Israel enfrenta seus próprios dilemas a partir da nova realidade do OM

11 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky O suposto ataque aéreo israelense a instalações de desenvolvimento de armas químicas na Síria deve ser entendido dentro do contexto amplo de alteração de equilíbrio regional. No cenário atual – em que o Irã tem demonstrado grande ampliação em seu quadro de aliados –, a situação de Israel é de fragilidade. Em todos os momentos em que isso aconteceu, o Estado Judeu viveu dias de tensão e dúvida sobre a própria existência. Os eventos ocorridos em 1948, 1967 e 1973 (Guerra de Independência, Guerra dos Seis Dias e Guerra do Yom Kippur) moldaram a política de defesa israelense. O momento atual guarda semelhanças com os três fatos históricos que menciono acima.
 
Nas três principais guerras travadas entre Israel e seus inimigos regionais, a posição israelense era de defesa e obrigação de vitória em nome de sua existência. As análises sobre esses conflitos levaram Jerusalém a estabelecer marcos e doutrinas que independem da coalizão de partidos à frente do governo. Sejam lideranças de esquerda ou direita, a premissa a balizar as decisões militares do país é clara: nenhum dos adversários regionais pode estar em situação de superioridade ou igualdade com Israel porque em todas as ocasiões em que houve esta percepção por parte dos inimigos o Estado Judeu foi confrontado. Todas as vitórias israelenses garantiram a continuidade de existência do país e moldaram esta prerrogativa de defesa suprapartidária.
 
Hoje, a ascensão regional do Irã e a alteração do frágil equilíbrio regional (além das escolhas equivocadas das monarquias do Golfo Pérsico sobre as quais comentei por aqui) empurram Israel a novamente debater sua premissa defensiva e o que irá fazer a partir disso.
 
No final de agosto, Benjamin Netanyahu esteve na Rússia e se encontrou com Vladimir Putin. A pauta do líder israelense tinha como único objetivo apresentar as demandas do país a partir do novo quadro em formação no Oriente Médio. Na sequência do encontro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas votou a renovação do mandato das Forças de Paz no Sul do Líbano (UNIFIL). Israelenses e americanos pressionaram para que a redação mencionasse explicitamente as atividades da milícia xiita libanesa Hezbollah em desacordo com a resolução 1701 que encerrou a guerra entre Hezbollah e Israel em agosto de 2006. A Rússia se opôs à posição, garantindo que a nova resolução excluísse seus parceiros xiitas. Para os israelenses, esta posição foi entendida como a resposta oficial de Moscou às demandas apresentadas por Netanyahu durante o encontro com o presidente Putin.
 
O jornalista Ben Caspit cita no Al-Monitor encontro entre oficiais de segurança de Israel e EUA no qual os israelenses foram claros sobre como entendem o momento atual e as responsabilidades das potências diante das mudanças regionais:
 
“O que quer que aconteça depois da guerra na Síria irá moldar o Oriente Médio – e talvez todo o mundo – por gerações. Se o cessar-fogo não incluir um recuo xiita (...), um desastre irá acontecer. Vocês estão alterando o delicadíssimo equilíbrio na região. O preço imediato será pago por aqueles que vivem aqui, mas no final a conta será enviada a vocês”.
 
Esta declaração explica de maneira clara como os israelenses percebem a mudança do jogo. E pode esclarecer as razões pelas quais a base de produção de armamento químico da Síria foi atacada. Pode ser um recado de Israel sobre como irá reagir se os EUA, mas principalmente a Rússia – a nova detentora de poder regional – não considerarem as posições de Jerusalém.
 
Do ponto de vista das alianças, hoje existe um cenário muito desfavorável a Israel. Com Donald Trump na Casa Branca, havia a expectativa, pelo menos por parte de Benjamin Netanyahu, de estreitamento de laços entre os países depois de oito anos em que o primeiro-ministro israelense trocou farpas com o desafeto Barack Obama (a recíproca também era verdadeira). Mas, ao contrário de Trump, Obama entendia a institucionalidade do cargo e sempre conseguiu separar as desavenças pessoais com Netanyahu da aliança entre EUA e Israel (tanto que a cooperação na área de segurança entre os países nunca foi tão estreita quanto durante os oito anos do antecessor de Trump).
 
Agora a situação é muito diferente. Apesar do discurso muito favorável a Israel, a prática da política externa é ambígua. Não apenas o presidente americano está dedicado à política interna (onde inclusive mantém posições muito controversas em relação ao apoio recebido pelos movimentos nazistas e certamente antissemitas), como também, externamente, tem na prática deixado o caminho aberto para Putin no Oriente Médio. Talvez bem silenciosamente Netanyahu esteja sentindo falta de Obama, principalmente porque hoje no Oriente Médio Israel vive situação de bastante isolamento. 

O acordo amplo com as monarquias do Golfo ainda não aconteceu e o governo russo deixa claro que está disposto a recompensar seus aliados Hezbollah e Irã. O termo eixo xiita cada vez faz menos sentido, na medida em que os iranianos estão colocando no bolso atores regionais sunitas muito relevantes, como o Catar, a Turquia e agora o Hamas, grupo terrorista palestino com o qual se reconciliou após anos de afastamento em virtude do apoio que Teerã confere ao governo de Bashar al-Assad na Síria (o que inclui a chancela aos ataques com armamento químico promovidos por Assad contra a própria população síria).
 
Diante deste quadro amplo, parece que aos israelenses restará confiar na capacidade russa de segurar os ímpetos de seus aliados contra Israel (especialmente Irã e Hezbollah) e, enquanto não conseguir convencer Putin, pontualmente realizará ações para impedir que seus inimigos regionais adquiram ainda mais capacidade militar. A pergunta que fica a partir disso é em relação ao próximo passo: Israel irá assistir passivamente à alteração do cenário regional e de sua premissa de defesa? Eu apostaria que não. Resta saber agora quando os israelenses decidirão alterar a realidade que, querendo ou não, estabeleceu de vez o Irã nas colinas do Golan, no sul do Líbano e em Gaza (ou seja, em três das portas de entrada de Israel).