Irã e Israel a caminho do confronto

15 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky Na foto, o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh, em encontro com o Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei

Como tenho escrito ao longo do tempo por aqui, a situação no Oriente Médio é de tensão profunda. As autoridades de Israel, de maneira aberta, não estão satisfeitas com o modo como a Guerra Civil na Síria está se resolvendo. Com olhar apenas geopolítico, está evidente que os inimigos regionais dos israelenses estão obtendo ganhos estratégicos relevantes. Na prática, a alteração do tênue equilíbrio é uma ameaça não apenas à maneira como Israel se percebe no Oriente Médio, mas também ao posicionamento das monarquias sunitas do Golfo, daí os embates recentes envolvendo esses países árabes e o Catar, cada dia mais aliado ao Irã. 

Os planos desses eixos são exatamente opostos. No entanto, Israel está se expondo mais em seu giro internacional de forma a tentar convencer americanos e russos de que o resultado lhe é bastante prejudicial. No mês passado, Washington e Moscou acordaram o formato do estabelecimento das chamadas “zonas de segurança” nas fronteiras entre Síria e Israel e entre Síria e Jordânia. Enquanto Rússia e EUA concordaram que ao longo de 20 quilômetros “forças armadas de elementos estrangeiros” seriam impedidas de entrar nessas regiões, para Israel o texto é frágil. A posição israelense é que não há menção explícita a Irã e Hezbollah. 

Ao mesmo tempo em que as monarquias sunitas do Golfo Pérsico temem os ganhos que o Irã tem obtido, na prática é Israel quem está comprando essa briga abertamente – até por razões óbvias já explicadas no texto anterior. Com Donald Trump na Casa Branca e Putin muito interessado em recompensar aliados em sua virada de jogo regional, o governo de Jerusalém está apresentando demandas que já não são tão consideradas como em outras administrações dos EUA. 

A verdade é que há uma enorme diferença conceitual em jogo entre EUA e Rússia e, de outro lado, Israel. Para russos e americanos, o projeto de vitória na Síria tem dois grandes objetivos claros: derrotar o Estado Islâmico e interromper a Guerra Civil, mesmo que, para isso (e Trump também resolveu fechar os olhos neste caso), Bashar al-Assad continue a ser o presidente da Síria. Portanto, de maneira pragmática, a situação na Síria caminha para a vitória sob a perspectiva do Kremlin e da Casa Branca. Para Donald Trump, isso tem enorme valor, na medida em que não vê a hora de apresentar este resultado supostamente “positivo” em oposição às empreitadas no Oriente Médio de seu antecessor – e com o qual alimenta eterna rivalidade – Barack Obama. 

Para Israel a leitura é completamente diferente. O resultado na Síria impacta nas fronteiras e, portanto, na forma como o país se relaciona com atores regionais com os quais mantém relação abertamente hostil, como Hezbollah, Irã e Hamas (agora reconciliado com o Irã). Portanto, o que Rússia e EUA encaram como competição e vitória estratégica os israelenses entendem como questão básica de segurança interna. O mesmo vale em relação às monarquias sunitas do Golfo, que igualmente percebem o projeto geopolítico iraniano como ameaça potencial. 

O fato é que é impossível descontextualizar os resultados da Guerra Civil Síria das disputas regionais. E por isso os eventos recentes devem ser compreendidos como tijolos que fazem parte do processo de construção permanente do Oriente Médio. A renovação da presença das Forças de Paz da ONU estacionadas no sul do Líbano (UNIFIL) e a incapacidade que este contingente militar de 10,5 mil soldados demonstra de frear a transferência de armamento do Irã para o Hezbollah acaba por servir de exemplo aos demais participantes do concerto de forças. Desta forma, em função deste dado, a Jordânia corre para acertar com Washington e Moscou que as milícias aliadas ao Irã em atuação na Síria estejam obrigatoriamente distantes da fronteira entre Síria e Jordânia ao menos 40 quilômetros. Os jordanianos entendem a partir do que ocorre na fronteira entre Líbano e Israel que a presença de forças internacionais como a UNIFIL não é suficiente para garantir estabilidade.
 
Ao mesmo tempo, o olhar iraniano é distinto, claro. Teerã não abre mão de seu projeto de expansão regional, o que chamo de ligação direta e terrestre entre Irã e Líbano. O país está conseguindo estabelecer posições relevantes no Iraque, na Síria, no Líbano e, claro, em Gaza, além do pacto com importantes atores, como Rússia, Turquia e Hezbollah. De acordo com Uri Savir, um dos fundadores do Peres Center for Peace, a estratégia iraniana também se aproxima dos palestinos na Cisjordânia, ou seja, da liderança institucional palestina, não apenas do Hamas, em Gaza. 

Segundo o oficial da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) ouvido por Savir, houve aproximação entre Hamas e Hezbollah com o propósito de iniciar uma grande campanha contra Israel inspirada pelo Irã. De acordo com a avaliação deste oficial da OLP, a ideia dos iranianos é, por meio de uma nova onda de ataques a Israel, punir a administração Trump e a coalizão reforçada pelo presidente americano com os países sunitas (Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait e Omã). Se isso tomar corpo e a ofensiva contra Israel se concretizar, a Autoridade Palestina (AP) formaria um governo de coalizão com o Hamas, isolando ainda mais Israel e assumindo institucionalmente a pauta regional do Irã. 

Pode até parecer fácil, mas romper com os EUA desta maneira – e ainda por cima deixar evidente a “compra” do projeto regional do Irã – não é exatamente uma decisão simples de ser tomada. Até porque corresponde a um novo alinhamento que pode reduzir benefícios, ganhos políticos e ajuda financeira que a AP recebe dos americanos. Uma declaração de guerra aberta a Israel também coloca os palestinos em Gaza e Cisjordânia no alvo. O Hamas costuma fazer isso sem maiores questões, mas a AP não. Este tipo de posicionamento do oficial da OLP, se de fato corresponder aos caminhos adotados pela AP, pode ser também um balão de ensaio de forma a pressionar os governos de Israel e EUA em virtude do estado de impasse no qual se encontra o processo de paz – situação que, por ora, parece bastante confortável ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. 

No final das contas, há uma situação limite na região e que é insustentável no médio prazo. A maneira como o Irã e Israel percebem a geopolítica regional não é apenas oposta, mas a posição que prevalecer corresponde ao fracasso e exclusão da outra. A vitória do projeto expansionista iraniano necessariamente implica na derrota israelense. Ao mesmo tempo, eventual vitória de Israel representa obrigatoriamente a interrupção do projeto de reorganização regional que tem sido levado adiante pelo Irã. Portanto, cedo ou tarde, essas duas narrativas (e a de Israel corresponde também à maneira como as monarquias sunitas entendem o Oriente Médio) caminham para entrar em confronto.