O beco aparentemente sem saída na Coreia do Norte

19 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky Há um evidente processo de escalada no confronto retórico entre o regime norte-coreano e os inimigos regionais – Japão e Coreia do Sul, especificamente – e distantes – em especial e fundamentalmente, os EUA. Kim Jong-Un lançou um míssil sobre o Japão e conduziu seu teste nuclear mais poderoso no último dia 3 – o sexto teste realizado. 

O presidente americano, Donald Trump, prometeu responder com “fogo e fúria”. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, publicou um texto duro no New York Times defendendo mais do que a aplicação de sanções à Coreia do Norte, deixando claro também o alinhamento à posição dos EUA de que “todas as opções estão sobre a mesa”, menção clara à possibilidade de conduzir um ataque militar. 

“Considerando sua história e a continuidade de testes nucleares e lançamento de mísseis, (o estabelecimento de) mais diálogo com a Coreia do Norte teria resultados inócuos. Pyongyang interpretaria (a proposta de) mais diálogo como prova de que outros países sucumbiram ao sucesso de seu lançamento de mísseis e testes nucleares”, escreve o primeiro-ministro Abe. 

São palavras duras e que deixam pouca margem de interpretação. Estrategicamente, este é um posicionamento também de uma liderança regional que busca rearmamento e fortalecimento das instituições militares – assunto delicado no Japão que, a partir da redação da constituição na esteira da derrota na Segunda Guerra Mundial, passou a ter poderio apenas de defesa (artigo 9 da constituição japonesa). 

A crise na Coreia do Norte envolve muitos aspectos e, claro, é indiscutível que o território japonês está sob ameaça direta. A subida no tom, inclusive com o discurso muito claro de Trump na Assembleia Geral da ONU (“se for necessário, vamos destruir a Coreia do Norte”), é um ponto coletivo e de união entre Japão e a principal cadeia de comando político e militar americano.  

Diante da falta de perspectivas reais para solucionar a crise, parece-me que a assertividade do discurso se transformou na própria estratégia. Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, disse que o Conselho de Segurança esgotou as opções para conter o programa nuclear norte-coreano e que o assunto seria repassado ao secretário de Defesa, James Mattis. O general H.R. McMaster, conselheiro de segurança nacional do presidente Trump, também afirma que a opção militar deve ser considerada. 

Aviões bombardeiros B-1B americanos e caças F-35 realizaram exercícios em conjunto com a Coreia do Sul. Temos, portanto, um cenário onde exercícios militares e escalada no discurso compõem os dois pilares da estratégia de Washington para se opor às ações práticas do regime norte-coreano. A questão é que nada aparenta ter o potencial de interromper o projeto do país asiático. E a cada novo discurso de autoridades americanas e a cada novo teste conduzido por Kim Jong-Un a chamada linha vermelha vai sendo traçada, apagada e redesenhada um pouco mais para trás. 

Lembrando sempre que Trump foi crítico da estratégia do antecessor Barack Obama de estabelecer linhas vermelhas e redesenhá-las, situação que ocorreu de forma bastante constrangedora após os ataques com armamento por Bashar al-Assad contra a própria população civil da Síria, em agosto de 2013. Obama caiu na própria armadilha ao perceber que o limite estabelecido o empurrou a um beco sem saída. 

O Impasse atual na Coreia do Norte pode ter um desfecho catastrófico justamente em função dessas questões; principalmente porque, aparentemente, Donald Trump não encontra uma saída honrosa capaz de solucionar a crise e, ao mesmo tempo, evitar comparações com o desafeto Barack Obama. Temos, portanto, um cenário onde evitar uma guerra nuclear depende quase que exclusivamente da capacidade de Trump de, institucionalmente, distanciar-se da tentação de agir de modo diferente de seu inimigo político doméstico. Não é exatamente uma situação animadora.