Confronto por procuração: a guerra entre Israel e o Hezbollah

22 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky Ficou muito claro a partir dos pronunciamentos do presidente americano, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a posição central que o Irã ocupa em suas respectivas pautas de segurança. É claro que, para Trump, a Coreia do Norte é hoje uma ameaça mais evidente. Mas ambos os líderes usaram o palanque da Assembleia-Geral da ONU para lançar luz sobre as ambições da República Islâmica. Trump surfou na onda da crítica contumaz ao seu antecessor pelo qual tem obsessão, Barack Obama; Netanyahu encara o Irã como ameaça existencial a Israel e dedicou boa parte de seu discurso a tentar convencer a audiência quanto à gravidade da concretização dos projetos regionais de Teerã. 

Apesar de acreditar que um confronto entre Irã e Israel é apenas questão de tempo, vale dizer que não necessariamente aviões israelenses irão sobrevoar Teerã. E, por outro lado, também é improvável que aviões iranianos sobrevoem Jerusalém ou Tel Aviv. Possivelmente, a disputa militar entre Israel e Irã deve ocorrer como uma nova rodada do conflito de 11 anos atrás entre Israel e o Hezbollah. 

Na última década, a expansão do discurso e da influência iraniana no Oriente Médio está diretamente relacionada à parceria entre o país e o Hezbollah. Membros da milícia xiita libanesa estão presentes em todas as arenas onde Teerã se pretende protagonista em seu projeto de expansão política e militar no Oriente Médio – Iraque, Síria, Iêmen. 

Há, de fato, uma relação simbiótica entre esses parceiros em função de pontos fortes, fracos e características comuns a ambos. O Hezbollah nasceu na década de 1980 basicamente com a missão de lutar contra Israel. Entre 1985 e 2000, os israelenses mantiveram uma faixa de 15 quilômetros de território no sul do Líbano chamada de Zona de Segurança, de forma a impedir os ataques constantes às comunidades e cidades do norte de Israel. 

A milícia xiita ganhou força e prestígio a partir deste embate e, desde que os israelenses se retiraram por completo e de maneira unilateral do sul do Líbano, em 2000, o Hezbollah assumiu o controle do território. Seis anos mais tarde, em 2006, Israel e Hezbollah entraram em confronto direto, cujos resultados serviram para catapultar ainda mais o prestígio do grupo no mundo árabe e aprofundar a associação com o Irã. Hoje, a estimativa é que o Hezbollah tenha efetivo entre 30 mil e 50 mil homens e mais de cem mil mísseis prontos para serem lançados em Israel. A maior parte deste armamento foi fornecido ao grupo pelo Irã.

A parceria estratégica entre iranianos e membros do Hezbollah é ponto fundamental da vitória do ditador Bashar al-Assad na Guerra civil síria. Com isso, o grupo aumentou ainda mais seu capital militar e político e, ao mesmo tempo, está provendo a seus patrocinadores o estabelecimento de mais uma base de atuação contra Israel, desta vez nas Colinas de Golan. O Hezbollah aumenta sua influência de maneira considerável no Estado libanês, superando em força, capacidade, treinamento e armamento inclusive o exército do país. Para o Irã, país de língua persa, o grupo passou também a ser uma ponte para o mundo árabe. A ambos, Irã e Hezbollah, a união fortalece a posição de duas das principais forças xiitas numa região onde este segmento religioso é absolutamente minoritário. 

Os problemas – para Irã e Hezbollah igualmente – é que o protagonismo de suas agendas regionais também os coloca na posição de principais inimigos de Israel, a potência militar regional. Quanto mais ambos os atores se empenham em concretizar seus projetos, mais testes impõem a Israel. 

A situação israelense hoje tem dois focos: o político e o militar. A liderança militar de Israel não se opõe ao acordo nuclear, muito pelo contrário. Interpreta o congelamento do programa nuclear iraniano como janela de oportunidade para se dedicar a outros assuntos durante a década de restrições atômicas acordadas em conjunto pelas potências internacionais e o Irã. O problema é que a liderança política pensa o oposto; para Benjamin Netanyahu, o Irã é prioridade absoluta e o primeiro-ministro considera o projeto regional do país e de seus aliados como ameaça existencial. E aí, para azar de Irã e Hezbollah, a hierarquia estabelece que a liderança política se sobrepõe à militar. 

Diante deste cenário, resta saber quem irá iniciar o conflito: o Hezbollah a partir de ordens de seu patrocinador ou Israel, mandando um recado ao Irã e lidando com o que considera ameaça existencial. 

Numa nova guerra contra o Hezbollah, a postura israelense será diferente. Como as autoridades do país têm mencionado com frequência, em função dos acontecimentos políticos e das declarações de autoridades libanesas, é muito provável que Israel considere um ataque do Hezbollah como declaração de guerra do Líbano. Este é um aspecto importante; não serão mais alvos dos ataques israelenses apenas a infraestrutura do grupo xiita, mas de todo o país, uma vez que Israel não vê mais diferenças e distanciamento entre o Hezbollah e o Estado nacional libanês. 

Este caminho abre muitas possibilidades, especialmente neste novo Oriente Médio. Parece-me que a estratégia israelense é mudar um pouco o foco, pressionando o grupo xiita a partir da sociedade civil libanesa, deixando claro que, num eventual e provável conflito, ela arcará com os custos em função do projeto conjunto entre Hezbollah e Irã e, sobretudo, da complacência e parceria do Estado libanês. 

Num novo cenário de confronto, também há dúvidas sobre a atuação do próprio Irã (cada vez mais forte) e da Rússia, que tem presença política e militar protagonista na região. Para Israel, que realizou o maior exercício militar em 20 anos se preparando para uma guerra contra a milícia xiita, fica a dúvida de como os novos atores atuarão neste conflito. E todo este pacote pode acabar por alterar de vez a balança de equilíbrio histórico vigente no Oriente Médio.