Curdos do Iraque aprovam independência e movimentam o OM

26 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky Existe um novo foco de ansiedade no Oriente Médio. Desta vez, a partir do referendo cujos resultados apontam a intenção de a região autônoma curda do norte do Iraque se separar do resto do país e constituir o primeiro Estado nacional curdo, o Curdistão. Desde 2005, boa parte dos seis milhões de curdos iraquianos vive já numa região semiautônoma que recebeu o nome de Governo Regional do Curdistão (KRG, em inglês). Dos cerca de 30 milhões que vivem no Oriente Médio, os do Iraque compõem o grupo que usufrui de mais direitos. 

A questão é que o presidente do KRG, Masoud Barzani, decidiu transformar o histórico pleito curdo por autodeterminação numa medida prática, não apenas colocando a demanda curda em votação popular, mas causando um novo foco de movimentação política e militar numa região fundamental para as pretensões de muitos dos atores do Oriente Médio. 

É importante deixar claro que a votação não é vinculante, ou seja, não há qualquer garantia legal de que um Estado nacional curdo será criado a partir deste resultado eleitoral, muito embora, sem nenhuma dúvida, o resultado do referendo pode ser considerado como o auge do projeto nacional para a criação do Curdistão. 

Não há como prever a reação dos outros curdos espalhados pela região, especialmente na Turquia (onde representam entre 19% e 25% da população), Irã (entre 13% e 17,5%), no próprio Iraque (entre 25% e 27%) e Síria (entre 12,5% e 15%). Os números são pouco precisos porque não há estatísticas definitivas nos países onde os curdos vivem. 

Sabe-se, no entanto, que é muito pouco provável que a população curda deixe os demais países para se juntar ao Curdistão legitimado pelas urnas. O foco do momento tem menos a ver com o ânimo curdo e mais com a visão internacional. E aí é curioso notar que, especificamente em relação a este ponto, há concordância entre Irã, Turquia, Iraque e EUA. Irã, Turquia e Iraque se opõem abertamente a um Curdistão independente. 

O Iraque por razões óbvias, uma vez que perde parte importante do território e, considerando que o KRG atualmente controla a cidade de Kirkuk, o Curdistão passaria a deter 20% das reservas de petróleo iraquianas. Sob aspecto militar – a principal preocupação dos EUA –, os guerrilheiros curdos Peshmerga compõem a linha de frente no combate ao Estado Islâmico (EI). O temor americano é que agora, justamente no momento em que o EI apresenta posição de maior vulnerabilidade, a independência curda resulte em embates militares diversos que acabem por dispersar o foco e, por consequência, reanimar o grupo terrorista. 

Irã e Turquia abrigam 75% do total da população curda. Como o movimento nacional curdo historicamente pleiteia a criação de um país considerando os territórios de Turquia, Irã, Iraque e Síria, ninguém é capaz de prever se o Curdistão iraquiano esgotaria esta demanda ou se representaria apenas seu primeiro capítulo. Mais do que isso, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tem na luta contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) sua principal bandeira de segurança doméstica. O assunto é tão relevante que norteia grande parte atuação nacional e internacional do país. 

Israel apoia abertamente o Curdistão

O caso do Irã também se relaciona a um projeto internacional. Ao do próprio governo iraniano. A ideia de estender suas ambições regionais de forma contígua do território iraniano até o Mar Mediterrâneo poderia ser ameaçada pela constituição de um novo Estado nacional em sua fronteira. O único líder internacional a expressar abertamente apoio à criação do Curdistão foi justamente o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. 

O líder israelense emitiu nota oficial no último dia 13 de setembro: “Israel apoia os legítimos esforços do povo curdo de realizar seu próprio Estado”. Uma espécie de Declaração Balfour do Estado Judeu para o Curdistão. 

A aliança entre Israel e os curdos é interessante aos israelenses. Não apenas porque o projeto curdo pode significar a criação de uma nova democracia no Oriente Médio, mas porque representa um contra-ataque diante dos ganhos obtidos pelo Irã neste novo Oriente Médio. Os iranianos estão posicionados em três das cinco fronteiras israelenses: Líbano, Síria e Gaza. Israel, por sua vez, não tem qualquer posição na fronteira com o Irã. É uma situação de clara desvantagem aos israelenses.

Muito possivelmente, portanto, Israel encara a criação do Curdistão independente de forma positiva por quatro aspectos: a criação de uma nova democracia regional; um país com o qual terá boas relações desde o primeiro dia de sua existência; o impedimento da contiguidade plena do projeto iraniano; e uma tentativa de obter ao menos uma zona fronteiriça com o Irã de forma a causar algum desconforto a Teerã.