Os curdos vivem seu momento mais relevante na história

29 de Setembro de 2017
Por Henry Galsky Legenda: o mapa mostra a distribuição da população curda no Oriente Médio

Há uma discussão em relação ao referendo curdo especialmente sobre o tempo. A dúvida é se este foi o momento ideal para buscar a realização da autodeterminação curda e a criação do Curdistão. Minha análise é que não havia momento mais apropriado. 

Isso não quer dizer obviamente que o projeto será bem-sucedido, nem muito menos que os importantes atores regionais (Irã, Turquia, Iraque e Síria) e internacionais (EUA e Rússia, especialmente) estejam propensos a aceitar o Curdistão pleno. Mas a ideia do referendo e sua realização foram bem concebidas. 

Nunca os curdos ocuparam posição protagonista. Hoje, no entanto, são muito relevantes na geopolítica local graças ao poderio militar e a capacidade combativa dos guerrilheiros Peshmerga – fundamentais na luta contra o Estado Islâmico (EI) e no processo de retomada de Mosul, em julho – e da milícia curda YPG, que ocupa uma parte importante do norte da Síria. 

Há 30 milhões de curdos no Oriente Médio. E a impossibilidade de cumprir sua autodeterminação ainda é fruto da divisão de fronteiras realizada pelas potências Grã-Bretanha e França que redesenharam a região a partir do fim do Império Otomano, em 1916. Graças à queda otomana, os chamados Estados nacionais modernos começaram a tomar forma no Oriente Médio. Os curdos não conseguiram obter sucesso no pleito e há mais de cem anos buscam a realização de seu projeto nacional. 

Outras demandas por autodeterminação têm muito mais visibilidade, como no caso dos palestinos, por exemplo. De forma esquemática ou não, os curdos estão aproveitando o momento e surfando nas conquistas militares recentes e na reorganização regional a partir da Guerra Civil Síria e do combate ao EI. Os curdos apostaram alto ao assumir a linha de frente da luta contra o grupo terrorista mais temido do mundo. E agora querem obter a recompensa por isso. Não se pode analisar a situação e o referendo curdo sem levar todos esses fatores em consideração. 

No entanto, como escrevi acima, não haverá Curdistão sem alguma forma de acomodação com as potências vizinhas. Até agora, Turquia e Irã são os que apresentam mais resistência, além do próprio Iraque, claro. 

Ao contrário do primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, nem iranianos, nem turcos terão qualquer perda concreta a partir do nascimento do Estado curdo. No entanto, como apresentei na primeira análise sobre o assunto, como ambos os países abrigam grandes comunidades curdas, temem o que pode acontecer na sequência de uma eventual declaração de independência do novo país. 

Irã, Turquia e Iraque já realizaram exercícios militares nas fronteiras do Curdistão; o Iraque ordenou o fechamento do aeroporto de Irbil, capital do território; o Irã determinou o fechamento do espaço aéreo para voos originários da cidade; e a Turquia foi mais direta, deixando claro que irá fechar o oleoduto usado pelos curdos para exportar petróleo. A ideia desses países é sufocar o Curdistão antes mesmo de seu nascimento formal. Todos esses países apoiam, a criação de um Estado palestino. Como costumo escrever, não esperem coerência em política internacional. 

A reação mais estratégica foi a do vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid al-Moualem. Diante da instabilidade, disse estar aberto a negociar o status dos curdos sírios dentro das fronteiras do país. E ainda foi além ao dizer que está disposto a discutir a demanda curda depois que o Estado Islâmico for derrotado. 

A posição conciliatória se deve a alguns fatores: o primeiro é que a Síria está fragmentada; o segundo é o poderio da milícia curda YPG. O retrato do momento mostra interesse dos curdos sírios em garantir alguma forma de autonomia no interior das fronteiras sírias, apontando um caminho que já debati por aqui algumas vezes: a possibilidade de, ao final da guerra civil, a Síria adotar um regime federativo total. 

Turquia e Irã estão desesperados, mas talvez este posicionamento seja precipitado. Não se sabe, por exemplo, se a demanda nacional curda irá se esgotar após o nascimento do Curdistão no Iraque. Esta é uma possibilidade que não pode ser descartada. E aí, se isso acontecer, a tendência é que os pleitos das comunidades curdas na Turquia e no Irã se esvaziem, um cenário que seria muito positivo aos governos turco e iraniano.