O nacionalismo é a principal bandeira deste momento histórico

03 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky Foi nos últimos 200 anos que os Estados-nação passaram a substituir os impérios, reinos e cidades-estados como protagonistas da organização da vida política e da sociedade. Este protagonismo passou a ser especialmente forte a ponto de o senso comum imaginar que os países são entidades naturais que sempre existiram. Muito pelo contrário. Na verdade, o estado nacional é uma invenção relativamente recente. 

A criação do estado-nação e seu culto máximo – o nacionalismo – retornaram com força máxima às discussões internacionais nas últimas duas semanas. O referendo pela independência do Curdistão iraquiano e, no último final de semana, o referendo pela separação total da Catalunha colocaram o estado-nação novamente no foco, muito embora os dois casos sejam incomparáveis. 

Os 30 milhões de curdos se espalham por Irã, Iraque, Síria e Turquia. Durante o processo de construção dos estados nacionais – conduzido justamente pelas potências europeias Grã-Bretanha e França – no Oriente Médio (ocupando o espaço deixado pela queda do Império Otomano, de maneira ampla) ficaram de fora do jogo. 

Os curdos com mais direitos vivem no Iraque. Nos demais países, ou não têm qualquer direito ou são oprimidos pelo poder central. A situação dos catalães – felizmente para eles – não é similar. E, deixando claro, esta análise não tem por objetivo fazer juízo de valor sobre o pleito catalão, mas é preciso estabelecer algumas diferenças entre os dois referendos. 

A questão na Espanha é que, mesmo se fosse o caso, o primeiro-ministro Mariano Rajoy só poderia autorizar a independência da Catalunha mediante reforma da constituição espanhola, uma vez que o documento estabelece a unidade nacional do país como pilar. A reforma constitucional, por sua vez, deveria ter o apoio da população como um todo. 

No entanto, mesmo resguardado pela constituição, a truculência da polícia enviada por Madri à Catalunha poderia constar de um manual prático de como lidar de maneira muito equivocada com o que a Espanha chama de parte integrante da população. A abordagem do poder central à população civil catalã tornou o processo mais doloroso e aprofundou o divórcio entre as partes. A forma de condução inábil de Mariano Rajoy pode ter efeitos catastróficos.

A situação do primeiro-ministro espanhol é no mínimo desconfortável. A Espanha é contestada internamente por uma série de movimentos separatistas, como o do País Basco, das Ilhas Baleares, das Ilhas Canárias, além do próprio nacionalismo catalão. A repressão demonstrada durante o referendo é certamente um recado a todos os demais. 

Para a União Europeia institucionalmente, a questão tem potencial ambíguo. Por mais que os catalães valorizem a UE e como eventual país independente pretendam se associar ao bloco, esta aproximação pode significar um precedente de enfraquecimento dos estados-membros. A Catalunha independente vinculada à UE pode acabar por marcar o início de uma nova onda de pleitos por independência em toda a Europa. Além dos movimentos separatistas espanhóis, há uma série de outras reivindicações nacionais: a Padania e o Tirol do Sul (no norte da Itália), Córsega (França), Flandres (Bélgica), Escócia (Reino Unido) etc.  

Assim, num mundo extremamente conectado, a reivindicação por independência da Catalunha naturalmente extrapola os limites do embate com o governo espanhol e se transforma num processo que, dependendo de sua conclusão, pode se replicar em outras partes da Europa. 

Há pontos importantes que encontram eco na situação contemporânea; a crise de identidade, a incapacidade europeia de lidar com as próprias questões internas (e o volume de refugiados apenas lançou luz e exacerbou a discussão) e o momento de exaltação de extremismos e polarização entre todas os espectros políticos. Tudo isso compõe um quadro mais amplo que resulta no retorno de bandeiras antigas e que voltaram a ganhar força, como o nacionalismo, a valorização do que é conhecido, a busca incessante pelos mitos “originais” nacionais, e, acima de tudo, a repulsa e a negação do que é visto como diferente, do outro. 

Todos esses elementos configuram também um sinal de fracasso do projeto supranacional europeu, a União Europeia. É a antítese do que se imaginava como progresso no início da década de 1990, quando o fim da Guerra Fria parecia apontar a superação de todos os muitos desafios enfrentados pelo ocidente – e pela Europa, em particular – ao longo do século vinte. O retorno dos nacionalismos –  parte deles inclusive busca legitimidade política justamente a partir da adesão à UE – acaba também por alterar três dos fundamentos originais prometidos a partir da criação do bloco europeu: paz, prosperidade e livre circulação de bens e pessoas.