Nem o estado-nação está garantido. Como chegamos até aqui?

06 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky Robert D. Kaplan, especialista em Relações Internacionais e membro do Conselho de Políticas de Defesa do Pentágono, apresenta como um sintoma deste momento histórico o desmantelamento do que chama de “estados-prisão” do Oriente Médio. Ele coloca sob esta chancela os estados nacionais que vivem desde o nascimento como países modernos sob regimes ditatoriais, casos de Líbia, Egito, Iraque e Síria, por exemplo. Esses estados jamais usufruíram de democracia e, mesmo agora após a morte de seus ditadores (como exceção da Síria), não experimentaram abertura política, imprensa livre e o fortalecimento de instituições independentes. 

Depois da Primavera Árabe – ou no caso iraquiano, após a invasão americana em 2003 –, esses países entraram em processo de colapso, resultando no grande fluxo migratório que marca de maneira decisiva o século 21. E aí retornamos à Europa e aos EUA. O processo de ascensão dos nacionalismos e de contestação da própria política é marcado por duas experiências globais relevantes: a crise econômica que nasce a partir da bolha imobiliária da primeira década deste século e, claro, a onda ainda em formação de uma nova e significativa leva de refugiados – esta última com especial impacto na Europa. 

Ou seja, é impossível dissociar três dos principais elementos que marcam a vida política e social em todo o mundo neste século: a emergência do nacionalismo e suas vitórias eleitorais, a crise econômica que acometeu com força Europa e EUA e o grande fluxo migratório de populações da África e do Oriente Médio com destino ao território europeu. Esses três pilares compõem individualmente pontos de referência fundamentais para compreender este início de século e, quando combinados, estão na base de todos os acontecimentos políticos, militares e sociais de nossos dias, com especial gravidade nesta segunda década. 

Não se pode analisar este momento histórico isoladamente e, por isso, é preciso retornar à primeira década, retrocedendo à Primavera Árabe – processo que se inicia no final do ano de 2010 e culmina na série de movimentos que passaram a ficar conhecidos como Occupy

A Primavera Árabe está na origem das diversas manifestações com formato Occupy que se espalharam por 68 países e que, de maneira ampla, contestavam a forma de se fazer política. Pontualmente, cada um destes movimentos ou visões sofreu mutações a partir das realidades locais, mas o Occupy se tornou o grande símbolo desta época.

A questão é que, num mundo hiperconectado, as reações que se encadeiam provocam interpretações das mais diversas e respostas das mais contraditórias. A ascensão dos nacionalismos e sua expressão política ganham força de maneira proporcional à contestação. A ascensão de movimentos de extremismo (à esquerda e à direita) também são resultado desta onda ainda em formação. A ideia de refundação da política e do próprio estado-nação culmina na eleição de Donald Trump, nos EUA, no Brexit, no retorno dos nazistas nas eleições parlamentares da Alemanha e, claro, no novo impulso a movimentos separatistas europeus, como por exemplo o da Catalunha. 

A Primavera Árabe, os muitos movimentos Occupy, a ascensão da extrema-direita, a eleição de Donald Trump e o referendo da Catalunha compõem (sem necessariamente uma relação de chancela ou apoio mútuos) uma linha que tem como base fundamental a contestação do estado-nacional. Ou, para ser ainda mais preciso, a cobrança sobre a “promessa” oferecida pelo modelo de estado-nação no mundo globalizado. 

Prosperidade, paz e bem-estar social são algumas das expectativas criadas pela globalização. Isso fazia ainda mais sentido no Ocidente e, para ser mais específico novamente, nas democracias ocidentais do hemisfério norte. E aí retorno ao conceito criado por Robert D. Kaplan de “estados-prisão” do Oriente Médio. 

Quando esses países faliram – quando essas ditaduras não conseguiram mais manter as populações encarceradas – o fluxo migratório justamente rumo às democracias ocidentais do hemisfério norte combinado ao longo período de crise econômica europeia incendiou qualquer possibilidade de estabilidade. 

E, no caso europeu, faço sempre questão de lembrar que o continente experimentou muito mais períodos de guerra do que de paz. Apenas para me ater ao século 20, a guerra contra o nazismo foi posteriormente substituída pela guerra contra o comunismo, vencida somente nos anos 1990. A globalização se fixou como modelo no hemisfério norte, que o expandiu para todo o mundo. 

Desde o início da segunda década deste século, as populações das democracias ocidentais criticam o produto da globalização e suas promessas não-cumpridas. Ao mesmo tempo, as populações dos “estados-prisão” fogem em busca dessas promessas já contestadas pelos cidadãos comuns europeus, que, por sua vez, pretendem ou refundar a política ou seus próprios estados nacionais. Ou ainda, nos casos mais extremos, desvincular-se do poder central.

O pleito reforçado de nascimento de novos estados já poderia ter acontecido durante a crise econômica recente. Mas a crise posterior – a dos refugiados – recolocou o nacionalismo novamente no centro do debate político. Os acontecimentos de hoje estão diretamente vinculados a todos os processos acelerados e de rompimento que estamos testemunhando ao longo desta segunda década. Isso está longe de terminar e, depois do nacionalismo e da contestação de políticos e governos, o questionamento à própria unidade do estado-nação pode ser um dos caminhos. Por ora, o conceito e o protagonismo do estado-nação como ponto central da organização política, econômica e social permanecem, mas nada está garantido num ambiente tão explosivo, hiperconectado e em permanente mutação. 


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