Donald Trump inicia rompimento do acordo nuclear com o Irã

11 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky A ideia do presidente Donald Trump de retirar a certificação do Irã quanto ao cumprimento de suas obrigações no acordo nuclear assinado em 2015 não tem como objetivo a retomada do protagonismo americano no Oriente Médio. Como tem sido frequente nas posições internacionais da atual administração em Washington, o propósito permanente é a desconstrução dos ganhos obtidos durante a presidência do antecessor Barack Obama.
 
De forma contraditoriamente coerente, este é o norte de Trump; tem sido assim em relação ao Obamacare, ao Acordo de Paris sobre o clima e será desta maneira até o fim do governo, no ainda muito distante 20 de janeiro de 2021. No caso do programa nuclear iraniano, a retirada da certificação ainda precisa ser aprovada pelo Congresso americano, que terá 60 dias para voltar a impor as sanções sobre o governo iraniano. No próximo dia 30 de outubro, Trump deve listar a Guarda Revolucionária Iraniana (GRI) como parte das organizações terroristas internacionais.

A Guarda Revolucionária Iraniana está na base de sustentação do regime. E, num momento de ampla movimentação e instabilidade no Oriente Médio, luta diretamente contra o Estado Islâmico (EI), mas também atua intensamente pela manutenção do ditador Bashar al-Assad na Síria e pela concretização do projeto de expansão regional do Irã de maneira contínua entre o território do país e o Líbano. 

A GRI foi criada em 1979 durante a Revolução Islâmica. Foi o corpo armado que sustentou o processo de derrubada do Xá Reza Pahlevi, uma vez que as forças armadas tradicionais eram consideradas fiéis à monarquia. Com o tempo, adquiriram poder para além das questões militares, exercendo também grande influência em diversos setores da economia. Isso se tornou especialmente marcante durante o início dos anos 2000, quando o isolamento do Irã pelas sanções deu à GRI ainda mais protagonismo, já que as instituições tradicionais estavam impedidas de atuar. 

Desde a assinatura do acordo nuclear, em 2015, aos poucos o Irã tem se reinserido na comunidade internacional, girando a roda da economia tradicional e abrindo espaço para outros setores da sociedade. O rompimento do acordo e a inserção da GRI na lista internacional de terrorismo, certamente terão como consequência o isolamento do país e o reforço dos radicais, principalmente das posições defendidas pela própria GRI.

E, desta vez, silenciando os setores mais moderados e já sem voz da sociedade iraniana, uma vez que a GRI irá acelerar no posicionamento fácil de que não se pode confiar nos EUA e no Ocidente de maneira mais ampla. Estrategicamente, é um passo que pode ser de difícil reversão. 

Num ambiente regional instável e onde Washington é cada vez menos presente, o rompimento total com o Irã a partir de novas sanções terá resultados imprevisíveis no curto prazo.

A construção de alianças pelo Irã

O programa nuclear iraniano foi constituído como parte deste esforço regional de alteração de forças e estabelecimento hegemônico. O Irã conseguiu reorganizar-se mesmo depois das sanções ocidentais. Se o projeto nuclear tinha como objetivo evidente a adesão ao clube dos países detentores de arsenal atômico, depois da aproximação com o ocidente e do acordo de abertura a inspeções periódicas, a função das usinas na estratégia regional do país foi revista.  Vejam bem, a função deste grande aparato tecnológico foi revista, mas não seus objetivos regionais. É importante fazer esta observação porque são questões bem distintas. 

O Irã perdeu a possibilidade de obtenção de arsenal atômico no curto prazo (mas não em médio), entretanto, em compensação, passou a costurar com empenho suas alianças regionais. Mais ainda, iniciou um relacionamento estreito com a Rússia desde que o país decidiu intervir militarmente na Guerra Civil Síria, em setembro de 2015 (portanto, dois meses após o acordo sobre o programa nuclear do Irã). A aliança com a Rússia pela manutenção de Bashar al-Assad permitiu aos iranianos negociar a presença na Síria após a o fim da guerra civil. Com isso, além da aliança ainda mais próxima com Assad, ganharam a confiança da Rússia e a possibilidade de estabelecer bases no território sírio. 

O jogo proposto pelos iranianos e suas apostas foram igualmente vencedoras: o cumprimento do acordo reintroduziu o país na comunidade internacional especialmente sob o aspecto econômico e afastou a possibilidade de um ataque militar em curto prazo; a aproximação com a Rússia deu certo e, para completar, o eixo do qual o país é um dos protagonistas ganhou um ator de peso a partir da miopia do eixo sunita liderado pela Arábia Saudita: a Turquia, cujo foco da política externa é impedir a criação de um Estado curdo, passou a contar com auxílio iraniano neste propósito e, assim, Ancara pulou de vez no barco do eixo xiita (apesar de sua população ser majoritariamente sunita). Isso sem mencionar o Catar. 

Mesmo com o fim do acordo nuclear – se de fato isso se concretizar – todos os ganhos estratégicos já foram obtidos. A influência e o posicionamento iranianos estão consolidados. E certamente serão postos em prática como forma de pleitear reinserção econômica. A dúvida agora não é se o Irã fará uso dos instrumentos e alianças que criou ao longo do século 21, mas exatamente que mecanismos irá acionar e quais serão seus limites de atuação militar. Tudo isso está em aberto a partir da decisão de Donald Trump, se ela for aprovada pelo Congresso americano, claro.