A Somália não é um estado há 30 anos. Em dois anos, vai ser ainda pior

17 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky Em entrevista à rede alemã Deutsche Welle, Peter de Clercq, coordenador de Assuntos Humanitários da ONU na Somália, apresentou uma análise que pode ser aplicada a muitas partes do mundo, inclusive ao Brasil: “o que os atrai é receber um uniforme, pagamentos regulares e algo de que se orgulhar em sua existência. De repente, eles carregam uma arma e esta é uma tentação muito grande”. A observação é feita sobre o poder de atração do al-Shabab, grupo terrorista em atuação na Somália e responsável pelos atentados que mataram cerca de 300 pessoas. 

O discurso do al-Shabab – que em árabe quer dizer, ironicamente, “A Juventude” – trabalha com a mesma “lógica” de boa parte dos grupos terroristas em atuação em todo o mundo: a falência do Estado e a falência do Estado em se sustentar e sustentar qualquer política de bem-estar social estão na base do desperdício geracional que atinge em cheio justamente a juventude. Sem escola, sem trabalho e sem qualquer perspectiva de futuro, esses jovens se transformam em alvos fáceis a recrutadores que têm o trabalho muito simples de expor as contradições deste mundo hiperconectado. 

O al-Shabab e a Somália formam em conjunto um exemplo clássico da falência do Estado e de suas consequências hiperbólicas, assunto muito comum por aqui e que retornou com força nos textos anteriores. Em tempos de grandes polarizações, há um debate em curso que coloca em lados opostos a exacerbação do estado-nação (o nacionalismo) e o questionamento dos estados estabelecidos (muitas vezes também a partir do nacionalismo). 

Há, portanto, exemplos muito representativos do que chamo de três paradigmas contemporâneos do momento pelo qual passa o conceito de estado-nação. Na Espanha, a Catalunha é uma região rica sem maiores problemas estruturais. Mas quer a separação de Madri por questões que podem ser englobadas de maneira ampla em torno de origem e cultura. Os catalães favoráveis à separação total entendem que a região onde vivem não pode ser parte da Espanha sob a perspectiva histórica. Há outros pontos e a argumentação é bastante extensa, mas para este exercício podemos encarar desta forma. 

O caso do Curdistão é outro bom exemplo, mas certamente diferente do catalão (dediquei um texto a isso, inclusive). Os 30 milhões de curdos estão espalhados pelo Oriente Médio. Vivem em Irã, Iraque, Síria e Turquia. É no Iraque onde têm mais direitos. Durante o processo de queda do Império Otomano, em 1916, e criação dos estados modernos no Oriente Médio pelas potências europeias França e Grã-Bretanha, os curdos ficaram de fora do mapa e jamais realizaram o seu Curdistão. Esta é a bandeira histórica dos curdos. 

A situação da Somália é certamente distinta da de Catalunha e Curdistão. A guerra civil do início dos anos 1990 transformou o país num território dividido em três grandes regiões. No sul, onde está a capital Mogadíscio, fica a parte do país “governada” pelo presidente Mohamed Abdullahi Mohamed. É justamente no sul o foco de atuação do al-Shabab. Além da guerra civil e do terrorismo, os somalis já enfrentaram dois graves períodos de fome responsáveis pela morte de 500 mil pessoas. 

A Somália representa uma situação muito particular em relação ao conceito de estado-nação. Foi um dos primeiros casos do planeta onde ele deixou de existir formalmente. Na Somália nasceu a perspectiva de que a falência do estado apresenta território fértil para o terrorismo, certeza posteriormente confirmada pelos casos de Iraque, Líbia e Síria, para me ater aos exemplos mais conhecidos. Os atentados terroristas na Somália apresentam uma situação ainda mais dramática porque a tendência é que o estado já inoperante e inexpressivo entre ainda mais em decadência daqui a pouco mais de dois anos. 
Depois que as duas guerras civis dizimaram as forças armadas locais, a luta contra o al-Shabab tem sido travada pela Missão da União Africana na Somália (AMISOM, em inglês). São 22 mil soldados da União Africana que entraram no território para frear os avanços do grupo terrorista. No entanto, a perspectiva é que esta força deixe a Somália em 2020, dando ao al-Shabab a vantagem temporal. 

Assim, em tempos de questionamento do estado-nação, a Somália representa um caso emblemático; a partir de 2020, a Somália pode deixar de existir de vez, passando a ser um território livre para o al-Shabab, que deve ter ainda mais membros até lá justamente pela relação simbiótica permanente entre falência do estado e o terrorismo. Com o colapso definitivo até do pouco que restou do estado, o país pode se transformar politicamente numa nova entidade, talvez um califado dominado pelo grupo terrorista. A questão é que as datas estão inclusive já firmadas para isso se transformar em realidade. O ano é 2020. Será que alguém irá prestar atenção à Somália nesses próximos dois anos?