Batalha pelo Curdistão é mais um capítulo da ampla disputa pelo OM

19 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky Diante da claudicante política externa americana, é preciso dizer que, sim, os EUA acertaram em uma avaliação recente sobre as consequências do referendo pela independência da região curda no norte do Iraque, o chamado Curdistão Iraquiano. Washington sabia que os eventos seguintes poderiam iniciar uma onda de movimentações imprevisíveis com potencial de alterar o cada vez mais frágil mínimo equilíbrio de forças regional. 

Desde o dia 25 de setembro, quando os curdos levaram adiante seu referendo em busca de independência, a análise americana – apesar de correta – está sendo superada pelos eventos em solo. O primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, iniciou um processo de retomada de Kirkuk, de forma a impedir a independência do Curdistão. Este era um dos acontecimentos óbvios, mas no jogo de bastidores estão algumas das potências regionais em busca de construção de alianças e desmonte do projeto curdo. 

O foco da política externa americana era evitar a dispersão da luta contra o Estado Islâmico. Este sempre foi o ponto principal no Iraque. E aí a independência curda surgiu como um desafio a Washington. Primeiro pelo o que era óbvio. Já se sabia que a criação de um novo estado nacional no Oriente Médio não seria considerado razoável pelos atores regionais. 

Como tenho escrito, os curdos representam a mais significativa população mundial sem estado em todo o mundo. Espalhados por Iraque, Irã, Turquia e Síria, os curdos compõem o principal foco de preocupação do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Ele teme que um Curdistão Iraquiano acabe por promover novos levantes curdos na Turquia. Os iranianos, por outro lado, perceberam na preocupação de Erdogan um aspecto de reforço de sua aliança com Ancara, prometendo impedir o Curdistão Iraquiano em troca de mais um jogador de peso em sua busca por hegemonia regional. Este raciocínio iraniano tem funcionado. 

Mas o posicionamento do Irã sobre o nascimento de um Curdistão ali ao lado de seu território não está relacionado apenas à Turquia, mas a Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi o único líder mundial a publicamente se manifestar de maneira favorável ao Curdistão. Para Bibi, seria muito positivo abrir uma frente diplomática com um novo estado da região. Também corresponderia a um contra-ataque de Jerusalém. Enquanto o Irã abre frente e postos avançados em três das fronteiras israelenses (Gaza, sul do Líbano e Colinas de Golan), o estado judeu não é capaz de manter qualquer posicionamento mais próximo ao Irã. Mesmo que Israel não estabeleça de fato uma base no Curdistão (parece-me muito improvável que se concretize), a simples perspectiva de um país aliado a Israel em sua fronteira já corresponderia a um fato novo e motivo de preocupação a Teerã. 

Voltando aos EUA, o governo Trump se movimentou pouco sobre a questão curda. Seus apelos para que o referendo não fosse realizado não foram suficientes. Depois disso, os americanos estão apenas assistindo ao desenrolar de consequências. 
Enquanto Washington observa, o jogo regional está em curso. Como parte de seu modo de operação regional, os iranianos já despacharam para o Curdistão Iraquiano lideranças de suas milícias xiitas, as chamadas Hashd al-Shaabi, Unidades de Mobilização Popular (PMU, em inglês). Dois de seus líderes estiveram em Kirkuk possivelmente para negociar com lideranças curdas de oposição ao presidente Masoud Barzani, o movimento União Patriótica do Curdistão (PUK, em inglês). Como em qualquer jogo político, os curdos não são unitários e há diferenças e disputas políticas. 

As duas forças políticas mais importantes do Curdistão Iraquiano são o Partido Democrático do Curdistão (KDP), do presidente Barzani, e o PUK. As milícias xiitas enviadas à região pelo Irã podem estar em busca de costurar alianças com a oposição curda. Dois dos líderes do PMU, Haidi al-Amiri e Abu Mahdi al-Muhandis, são próximos a Qassem Suleimani, comandante da Força Quds –  braço da Guarda Revolucionária Iraniana (GRI) responsável pelas operações externas do grupo. A Força Quds é fundamental para o projeto de expansão regional iraniano. De acordo com oficiais americanos e argentinos, a Força Quds foi a responsável pelos ataques terroristas à embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992, e ao centro judaico AMIA, dois anos depois também na capital argentina. Ambos os ataques deixaram 114 mortos.
 
Enquanto os EUA assistem a tudo isso à distância, os iranianos estão tratando de redesenhar o Oriente Médio. Curiosamente, apesar disso, no caso do Curdistão, formalmente EUA, Turquia e Irã estão do mesmo lado, mesmo que por motivos distintos. Do lado oposto, está Israel. 

EUA, Turquia e Irã não querem um Curdistão independente, também por razões diferentes. Por ora, na prática os americanos optaram por não interferir diretamente nos rumos desta disputa. No entanto, como sem a força dos guerrilheiros curdos Peshmerga a guerra contra o Estado Islâmico não teria sido vencida, os americanos vão ter de, cedo ou tarde, adotar uma posição mais assertiva. 

O tempo não está a favor de Washington. Enquanto o governo Trump prefere se manter alheio, o Irã, ao contrário, preferiu não esperar. Pode não parecer, mas esta já é uma batalha estratégica travada sobre os escombros do fim da guerra contra o EI e, de forma mais ampla, mais um capítulo no processo de realinhamento de forças no Oriente Médio. 

Agora você pode ajudar o Carta e Crônica a se manter como projeto independente. Acesse www.padrim.com.br/cartaecronica e contribua