A reconciliação palestina e seus impactos na região

24 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky Na última semana, uma delegação do comitê político do grupo terrorista palestino Hamas esteve em Teerã. Na pauta do encontro, o processo interno palestino de reconciliação entre Hamas e Fatah. O Fatah, a facção que responde pela Autoridade Palestina (AP), foi expulsa de Gaza pelo Hamas em 2007 e nos últimos dez anos seu governo esteve relegado à Cisjordânia. Durante este período, qualquer possibilidade de retomada das negociações com Israel foi ilusória. O presidente Barack Obama deixou o cargo sem atingir seu objetivo principal de política externa.
 
A reconciliação palestina pode não garantir o início de novas negociações, mas certamente movimenta a política regional. Donald Trump disse claramente que pretende ser o artífice de um acordo definitivo entre israelenses e palestinos, por mais incoerente que isso possa soar. O atual mandatário americano quer triunfar onde Obama não obteve sucesso. Um acordo de paz seria sua grande resposta ao antecessor por quem nutre profunda obsessão. 

Trump quer envolver os atores regionais. E por isso a Casa Branca atual viu com bons olhos esta reconciliação palestina mediada pelo Egito. No jogo regional, o Egito é parte da aliança sunita (cujo significado religioso original perde cada vez mais sentido, importante deixar claro). O presidente palestino, Mahmoud Abbas, aposta neste mesmo raciocínio. Funcionários de seu governo já manifestaram anteriormente impaciência com a interferência do Irã nos assuntos domésticos palestinos. Para Abbas e o Fatah, a ideia de unificação palestina mediada pelo Egito pressupunha que o Hamas se afastasse dos iranianos, não apenas baixando as armas, mas entregando Gaza em sua plenitude ao Fatah e à Autoridade Palestina. 

No tênue equilíbrio de forças do Oriente Médio, toda esta movimentação desagradou ao Irã, o fornecedor de armamento ao Hamas. No encontro em Teerã, a mensagem clara: se os membros do grupo terrorista assumirem a reconciliação em todas as suas variáveis, não receberão mais armamento. 

Os iranianos esperam do Hamas o mesmo tipo de relação que mantêm com o Hezbollah. Isso já acontece em Gaza, mas a perspectiva de um olhar regional sobre o território e, ainda mais, a possibilidade de que eventuais conversações de paz passem a contar com os demais estados da região impõem aos iranianos um desafio numa de suas principais frentes.
 
Para ser claro, os EUA conduzirão o processo como de costume, mas, desta vez, a ideia é colocar sobre a mesa o conflito entre palestinos e israelenses como mais um item da agenda regional que negociará a paz definitiva entre Israel e seus vizinhos árabes – especialmente as monarquias do Golfo aliadas historicamente aos EUA e que representam, ao lado de Israel, claro, os principais entraves ao projeto de expansão hegemônica do Irã no Oriente Médio. 

O que beneficia as possibilidades de um acordo mais amplo é que este momento histórico corresponde a uma janela de oportunidade criada pelas próprias ambições do Irã. As monarquias do Golfo – e em especial a Arábia Saudita – consideram a rivalidade com os iranianos uma ameaça existencial. O discurso contra Israel acaba por ser flexibilizado neste cenário. E aí é muito possível que os americanos surfem nesta onda. A reconciliação palestina tal como imaginada pelo presidente palestino e certamente por Egito e EUA passa por este ponto; dar um nó tático no projeto regional iraniano. Não é de se esperar mesmo que Teerã assista a todo este movimento passivamente. 

O encontro dos iranianos com a liderança política do Hamas tem exatamente o objetivo de deixar isso claro. Até porque Israel demanda como pré-condição de diálogo que os palestinos agora unificados politicamente cortem relações com o Irã. Sem armas e sem reforçar o discurso da “resistência” contra os israelenses, o Hamas perde a própria razão de existir. E daí o encontro com o Irã ter este sentido de sobrevivência ao grupo terrorista palestino. 

O Canal 2 israelense divulgou neste domingo que a administração Trump irá apresentar em breve um plano de paz formal a partir do que chama de “arranjo regional abrangente”. E aí retorno ao que escrevi. Este plano considera certamente que os demais países do Oriente Médio – para ser mais exato, aqueles países com os quais os EUA mantêm relações diplomáticas – serão os fiadores do processo. Não imagino a possibilidade que o Irã não intervenha. E aí é possível que, em troca da aliança, financiamento e armamento, os iranianos exijam que o Hamas inicie novos ataques com mísseis a Israel, provocando uma resposta do Estado judeu e o recomeço do conflito armado. O mesmo pode vir a ser exigido do Hezbollah, no Líbano, na fronteira norte de Israel. 

Por mais que todo este processo seja uma repetição do que já ocorreu ao longo deste século em diferentes momentos, temos aqui algumas novidades: a primeira delas, a presença de um novo presidente americano que irá trazer alguns novos atores para este reforço do processo de paz. Como será que a Arábia Saudita e as demais monarquias do Golfo Pérsico irão reagir? Mais ainda, como Trump irá atuar – se todas essas etapas vierem a ocorrer de fato – sabendo que os iranianos, por meio de seus aliados nas fronteiras israelenses, poderão sabotar seu principal projeto internacional? E como a Rússia, a nova mandatária da região, irá responder, na medida em que é a única a manter relações com todos esses atores (inclusive com Irã e Israel)? 

Pode não parecer num primeiro momento, mas a reconciliação palestina carrega intrinsecamente todo este grande potencial de movimentação regional.