Crise na Catalunha: terremoto político e social na Europa

27 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky A Catalunha pode representar o ápice de uma crise existencial europeia que já vem se desenhando ao longo do século 21. Primeiro, a partir da crise econômica iniciada em 2007. Agora que Madri optou por invocar o Artigo 155 de sua constituição e intervir na região, o olhar da Europa se volta para a Espanha.  Isso porque, neste mundo hiperconectado, os passos dados pelo governo central espanhol e suas consequências certamente serão observados e podem vir a servir de base a uma espécie de manual de instruções a todos os demais movimentos separatistas, em especial aos já existentes e que ganham mais força na Europa. 

A Corte Europeia de Justiça determinou que o Artigo 1 da Carta de Fundação da ONU que garante o direito à autodeterminação a estados não-independentes deve ser interpretado como direito legalmente elegível. Na Europa, isso deve provocar ainda mais embates jurídicos e não faltam exemplos de regiões que buscam autonomia (casos de Lombardia e Vêneto, na Itália) ou independência (caso da própria Catalunha). É claro que, a partir da situação espanhola, o debate deve ganhar detalhamento jurídico, mas minha intenção é dar sequência a uma análise política e histórica. Especialmente sobre a crise existencial europeia em vigor desde 2007. 

Todos esses movimentos nacionais têm como fundamento a clareza de que as formas de organização tradicional da sociedade – e sua expressão política – deram errado. Alguns optam por culpar o poder central, a corrupção praticada e sua interferência nos rumos das regiões. Outros movimentos seguem o caminho mais óbvio, fácil e antiquado: culpam o poder central pela absorção de imigrantes. E o perfil mais comum de discurso é aquele que culpa todas essas possibilidades ao mesmo tempo. 

Na essência de tudo isso – e aí não importa o discurso local e suas supostas razões – está a certeza da distopia. Há neste momento da humanidade o senso comum de que os governos e associações políticas existentes foram incapazes de produzir riqueza e distribuí-las na mesma proporção. Como lembra Paul Manson em artigo publicado no Guardian, os setores ideológicos mais à esquerda na Europa tendem a se distanciar de qualquer movimento de emancipação nacional porque o foco da discussão – para os grupos de esquerda – tem como origem a luta de classes, não o conceito de nação. 

Este posicionamento ainda é resultado do século 20 e de sua luta principal, especialmente na Europa. Em suas versões mais extremas, esquerda e direita entraram em disputa sob duas bandeiras: a luta de classes e o nacionalismo (que está na raiz do nazi-fascismo). Hoje, em tempos de profunda polarização – e este não é um sintoma restrito ao Brasil, muito pelo contrário –, há grande dificuldades para analisar as reivindicações de cada movimento emancipatório. Há um temor – bastante justificado, inclusive – de que a chancela a determinadas lutas nacionais possa ser entendida como abertura a partidos ou grupos de tendências nazi-fascistas. 

No entanto, a relação que vem sendo estabelecida não conseguiu até agora impedir que partidos e grupos nazi-fascistas deixem o esgoto por onde andaram nos últimos 70 anos e passem a ocupar palcos na Europa e nos EUA inimagináveis até bem pouco tempo atrás. O nazi-fascismo retornou ao centro do poder decisório em muitas das mais importantes arenas internacionais, mesmo com a oposição da sociedade maior. 

O ponto central é que o jogo político europeu está em desarranjo e reconstrução. E a grande artífice deste processo é a própria União Europeia (UE). Ou, para ser mais exato, a quebra do “contrato” imaginário que ela propôs aos cidadãos dos países-membros. 

Como costumo escrever por aqui, a UE nasceu aportando garantias a um continente mais acostumado a períodos de guerra do que de paz. Ao contrário da impressão generalizada, o século 20 foi de guerra na Europa. Depois dos dois conflitos mundiais em território europeu, a disputa contra o comunismo até o início da década de 1990 esteve no centro político do continente. A criação da UE marca o início de um período que se supunha de paz, estabilidade e prosperidade. Mas aí vieram todas as muitas complexidades do século 21, que inclusive evidenciaram que a política externa estaria disposta a chegar aos europeus a nado ou caminhando. 

Os movimentos reivindicatórios por autonomia e o renascimento pulverizado de nacionalismos precisa ser compreendido como mais um capítulo também da disputa interna europeia. Tanto que, nos escombros do fim da União Soviética, imaginava-se que o destino político europeu seria determinado a partir da organização supranacional recém-fortalecida. O tempo estaria a favor da UE que, naturalmente, colecionaria adesões. 

O século 21 chegou para acabar com esta certeza, muito embora a UE continue a ocupar papel central no jogo europeu. De um lado, sendo abandonada e culpada pelos fracassos domésticos, como fizeram os britânicos no Brexit. De outro lado, usada como alavanca de legitimidade, como ocorre com os movimentos nacionalistas que quererem aderir à UE, casos de Catalunha e Escócia. Este é um momento de reconstrução não apenas das instituições europeias, mas das fronteiras nacionais e da forma como as sociedades se organizam. O resultado desta grande movimentação na Europa pode abrir um novo capítulo em todo o mundo.