Interferência russa: novas denúncias contra membros da campanha de Trump

31 de Outubro de 2017
Por Henry Galsky E mais uma vez a sombra de aproximação entre membros do alto-escalão da campanha presidencial de Donald Trump e do governo da Rússia volta a ocupar o centro do debate político americano. Paul Manafort e seu ex-sócio Rick Gates foram indiciados por lavagem de dinheiro, evasão fiscal e acusações de lobby internacional contra os EUA. O desenvolvimento das investigações é o pesadelo do presidente Trump porque, em último caso, pode resultar num processo de impeachment.

Paul John Manafort foi chefe da campanha de Donald Trump. Mas tem extensa carreira internacional e suas conexões com os russos – e posteriormente com Trump – têm como origem sua experiência na Europa oriental e também na Rússia. Para entender essa história, é preciso voltar um pouco tempo. 

A crise ucraniana de final de 2013 e início de 2014 teve como ponto de partida a recusa do então presidente do país, Viktor Yanukovych (aliado de Vladimir Putin e na foto ao lado do presidente russo), de assinar o acordo de associação à União Europeia (UE). A partir disso, a população tomou as ruas – especialmente da capital, Kiev – e expulsou Yanukovych do cargo. Os EUA apoiaram o movimento popular.

Yanukovych se refugiou na Rússia. Paul Manafort, chefe da campanha de Donald Trump, também foi consultor da campanha presidencial de Viktor Yanukovych, o aliado de Putin que caiu para impedir que a Ucrânia passasse a membro da UE.

No foco do inquérito conduzido nos EUA pelo procurador especial Robert Mueller III está a interferência da Rússia nas eleições presidenciais americanas de 2016. As agências de inteligência dos EUA concluíram, ainda no ano passado, que o governo russo agiu diretamente para minar a candidatura de Hillary Clinton e eleger Donald Trump. Por si só, esta conclusão já justificaria qualquer investigação, mas o cenário mais amplo é ainda mais estranho: como no caso de Paul Manafort, há outras figuras-chave da campanha de Trump que mantiveram contatos diretos e frequentes com membros do governo russo. 

Michael Flynn, conselheiro de Segurança Nacional, foi forçado a pedir demissão depois que o Washington Post revelou que ele também teria se encontrado com o embaixador russo na capital americana e que ambos teriam discutido as sanções aplicadas ao governo da Rússia. 

Jeff Sessions, o nome indicado pelo presidente americano para ocupar a procuradoria-geral (aprovado e atual ocupante do cargo), teria se encontrado com o embaixador russo em Washington, Sergey Kislyak. 

George Papadopoulos, conselheiro de política externa na campanha de Trump, declarou-se culpado por ter mentido sobre os contatos que estabeleceu com a Rússia. Ele admitiu ter se encontrado com um russo conhecido apenas como “Professor”, que lhe ofereceu vasto material contra a então candidata Hillary Clinton. 

Sempre vale lembrar que, em dezembro do ano passado, o então presidente Barack Obama expulsou do país 35 russos acusados de espionagem no território americano ainda em função da repercussão da influência de Moscou no processo eleitoral. 

Por enquanto, Donald Trump segue com a mesma estratégia de sempre; negar qualquer conspiração com os russos, qualificando como farsa todas as associações que vinculam sua campanha a Moscou. O problema para ele é que a cada novo resultado de investigação um nome de seu ciclo político de confiança é exposto. Paul Manafort, Michael Flynn, Jeff Sessions, George Papadopoulos. Está ficando mais difícil negar a relação com os russos. 

James Clapper, um dos mais emblemáticos críticos da administração Trump e ex-diretor de Inteligência Nacional, faz uma análise sobre a estratégia e vitória de Moscou a partir da campanha e, posteriormente, da eleição de Donald Trump:
“O primeiro objetivo foi semear descontentamento, discórdia e ruptura na nossa vida política. E eles (os russos) tiveram sucesso. Eles aceleraram, amplificaram a polarização neste país e derrubaram nosso sistema democrático”, disse em entrevista a Susan B. Glasser, no portal Politico

A bola agora está com Trump, que deve continuar simplesmente a negar toda a sorte de teorias ou então desviar o foco do debate para outro ponto. E isso não me surpreenderia. Quem sabe a Casa Branca busque a construção de um fato novo para além de suas fronteiras.