O Líbano no centro da disputa entre os eixos sunita e xiita

06 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky Há muito tempo analiso a divisão sectária do Oriente Médio. A macrodisputa regional entre sunitas e xiitas é a principal força motriz deste embate – ele mesmo ainda é resultado das divisões imperiais criadas por britânicos e franceses no século 20. Mais um capítulo desta história está sendo escrito a partir da renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri (foto). Pela televisão, já em território saudita, Hariri informou à população libanesa que pedia renúncia do cargo. E aí a disputa regional entra no foco; o primeiro-ministro culpou o Irã pela decisão, afirmando que a República Islâmica “espalha caos, conflito e destruição por todo o Oriente Médio”.

De acordo com Hariri, a renúncia e a consequente fuga do Líbano se devem a um plano iraniano para assassiná-lo. O pai de Hariri, Rafik, também ocupava o cargo de primeiro-ministro do país em 2005 quando foi morto num atentado à bomba na capital Beirute em circunstâncias jamais plenamente esclarecidas. A suspeita sobre o assassinato recai sobre a milícia xiita Hezbollah, de oposição a Hariri (o clã político sunita mais influente do Líbano) e abertamente aliada justamente ao Irã. Saad Hariri culpa os iranianos também por interferência na política interna libanesa.

Todo este quadro serve para expor de maneira indiscutível a disputa política sectária que envolve hoje todo o Oriente Médio.

A renúncia do primeiro-ministro libanês acontece no momento em que a guerra contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque vem chegando ao fim com resultados muito favoráveis à aliança xiita sustentada por Rússia, o presidente sírio, Bashar al-Assad, a milícia xiita libanesa Hezbollah, a Turquia (que não é xiita mas passou a ser aliada ao grupo) e, claro, o próprio Irã. Este último é certamente o principal interessado em pôr em prática sua visão política regional que define como premissa a expansão entre o território iraniano e o Mar Mediterrâneo – ou seja, o sucesso do plano internacional do Irã depende necessariamente do apoio libanês.

É importante ter muito claro que os acontecimentos em curso a partir de agora – a partir da derrota do Estado Islâmico – estão relacionados ao processo de reorganização política, econômica e energética do Oriente Médio. O que ninguém imaginava há dois anos aconteceu: com a adesão da Rússia à guerra contra o EI, não apenas o grupo terrorista foi derrotado, mas Assad se manteve à frente da Síria e seus principais aliados (russos e iranianos) se consideram como os legítimos herdeiros não apenas dos territórios sírio e iraquiano, mas do poder de dividir e determinar os rumos de toda a região, o que inclui também premiar aliados e excluir inimigos e desafetos.

E é por isso que o Líbano voltou a ficar no foco das atenções das potências mundiais interessadas em manter ou alterar o equilíbrio de forças regional. Ao contrário do século 20, este papel não cabe mais à Grã-Bretanha ou à França, mas a EUA e Rússia e, ao lado desses dois atores protagonistas, todos os seus muitos aliados. E aí a disputa sunita-xiita é a marca desta segunda década de século 21.

Em sua primeira incursão internacional, o presidente Donald Trump pulou de vez no barco das potências sunitas, ou seja, as monarquias árabes sunitas do Golfo Pérsico cuja liderança incontestável fica a cargo da Arábia Saudita. Barack Obama, seu antecessor, ainda tentou um equilíbrio, premiando o Irã com o retorno à comunidade internacional em troca da assinatura do acordo de congelamento temporário do programa nuclear.

Mas Trump não é adepto a tais sutilezas, preferindo descredenciar o acordo e iniciar o processo de exclusão iraniana. Com isso, permitiu também ao Irã acelerar naquilo que faz de melhor: obter aliados fragmentados nas lutas que patrocina por toda a região; Iraque, Iêmen, Líbano, Síria e Gaza. Em todos os territórios, os iranianos formaram pequenos Estados, minando o poder central e criando uma grande rede de relacionamento a partir de treinamento e envio de armamento a milícias xiitas que travam guerras por procuração.

Ninguém em todo o Oriente Médio trabalhou esta capacidade com mais afinco e por prazo tão extenso quanto o Irã. O pedido de renúncia de Saad Hariri no Líbano está inserido neste contexto. Ao culpar os iranianos, busca dar o troco na disputa regional em nome de americanos e sauditas. O Líbano é o palco da vez da macrodisputa e da guerra por procuração entre os eixos sunita e xiita.


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