As raras mudanças em curso na Arábia Saudita e a relação com o jogo regional

09 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky  
Na foto, o príncipe Mohammed bin Salman e o rei Salman


A Arábia Saudita está em movimentação. Esta novidade é realmente relevante, considerando-se principalmente a dificuldade do país em realizar mudanças. A nova onda saudita atende pelo nome de Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro do reino e protagonista deste processo. Como é comum no Oriente Médio, a linha que divide os assuntos domésticos dos regionais é muito tênue. Por isso é impossível não estabelecer conexões entre os grandes eventos internos sauditas e a construção do novo equilíbrio de forças em curso na região. 

Mohammed bin Salman tem apenas 32 anos e assumiu a liderança de um excepcional Comitê Anticorrupção já responsável pela prisão de 11 príncipes, além de ministros e ex-ministros. Um desses príncipes é Alwaleed bin Talal, cuja fortuna está estimada em 17 bilhões de dólares e que é conhecido investidor em empresas do porte de Apple e Twitter. Quando uso o termo “excepcional” acima o faço pela raridade de um acontecimento como este. 

O príncipe herdeiro é o agente de mudanças importantes do país. Criou um plano de modernização de nome “Visão 2030” que pretende implementar reformas e alguma forma de alteração social. Por mais romântico que este projeto possa parecer, o foco está na antecipação de problemas econômicos cujos sintomas são percebidos já nos dias de hoje. De acordo com relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado em julho, o PIB saudita apresentará ao final deste ano déficit de 9,3%. O desemprego já atingiu a marca de 12,3%. 

Como é claro para qualquer governante que tenha vivido este século 21, é cada vez mais difícil manter uma ditadura. É mais difícil manter um ambiente absolutamente fechado. E este é um cenário ainda mais problemático em eventuais períodos de crise econômica. É claro que o conceito de crise na Arábia Saudita tem interpretação distinta, mas é bem possível que a família real saudita esteja percebendo os sinais e fazendo conexões até bastante simples. Enquanto o Irã estabelece bases por toda a região e a guerra que os sauditas travam com os iranianos por procuração no Iêmen (por meio de combate aos rebeldes xiitas houthis) não apresenta quaisquer resultados positivos, é possível que a família real saudita esteja em busca de novos parceiros e comunicação interna e externa. 

Mais da metade da população do reino tem menos de 25 anos de idade. E é justamente entre esta camada que o jovem príncipe herdeiro encontra mais apoio. Mostrar que o país está em busca de novas fontes de recursos além do petróleo (base do projeto Visão 2030) e que combate a corrupção interna são maneiras de vincular a família saudita – por meio de seu jovem príncipe – à população comum que irá construir o futuro. 

E aí incluo a política externa neste momento de mudança. Com a vitória do eixo xiita na Síria, os sauditas precisam impedir o avanço dos houthis no Iêmen. Ao mesmo tempo, parecem dispostos a mudar para continuar ocupando o espaço de protagonistas no jogo regional. Contemporâneos, o príncipe Mohammed bin Salman e o genro e conselheiro sênior do presidente Trump, Jared Kushner, engataram relação de proximidade neste ano. No final de outubro, Kushner esteve na Arábia Saudita pela terceira vez apenas em 2017.

Depois que Trump demonstrou amplo apoio ao eixo sunita, a amizade entre Kushner e Bin Salman pode ter outros significados. Como numa relação simbiótica, americanos e sauditas podem ter muito a ganhar, mas também muito a perder. Uma das interpretações sobre esta simultaneidade de movimentos na Arábia Saudita é de que pode estar em curso uma grande disputa de poder interno. Se a Salman sair vitorioso e de fato seguir adiante com reformas mantendo-se alheio a eventual resistência de seus “opositores”, os EUA estarão garantidos. Mas, se a “resistência” conseguir desfazer os atos de Salman e a fricção com a família real for grande o bastante para iniciar um processo de alteração de regime, aí os EUA perdem. 
No entanto, é preciso fazer duas observações: a primeira é que é muito improvável que a “oposição” derrube a família real; e a segunda é que, mesmo neste remoto cenário, é igualmente improvável que se inicie um rompimento com os americanos. A não ser que um “terremoto” de mudanças estabeleça uma dinastia aliada ao Irã, por exemplo, o que não deve ocorrer. 

De qualquer forma, este é um período importante. A Arábia Saudita é protagonista regional e atua em muitas frentes. Diante disso, neste plano de redirecionamento promovido pelo príncipe, é possível que a amizade com Jared Kushner acabe por influenciar no processo de paz entre israelenses e palestinos. Trump deixou claro que pretende incluir novos atores. E os sauditas não devem ficar de fora deste projeto ambicioso. A proximidade entre Kushner e Salman pode render resultados, especialmente diante de acusações cada vez mais graves em relação à influência russa nas eleições americanas. A saída internacional – e uma saída como esta – certamente renderia a mudança de foco de que o governo americano deixa claro precisar.
 
Como mais um elemento nesta análise, vale dizer que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, viajou à Arábia Saudita nesta semana justamente para discutir questões regionais e a estagnação do processo de paz entre palestinos e israelenses. A aliança entre Abbas e os sauditas é uma oposição à relação entre o Hamas, que até bem pouco tempo controlava com exclusividade a Faixa de Gaza, e o Irã. No jogo regional do Oriente Médio, nenhum ator ou conflito fica de fora neste momento de reconfiguração.