EUA apostam todas as suas fichas regionais em MBS

13 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky Mohammed Bin Salman, conhecido também apenas pela sigla MBS, é o nome da vez não apenas na Arábia Saudita, mas no Oriente Médio. O príncipe herdeiro do reino se consagrou ao prender opositores que são membros da família real e fazem parte de uma coalizão muitas vezes tribal que sustenta historicamente o poder na Arábia Saudita. Conhecido pela pouca movimentação de forças e pela estabilidade na região mais instável do planeta, o país está em rota de mudanças profundas graças às ambições de MBS. 

Se tudo isso pode parecer muito positivo, é preciso fazer algumas reflexões.Bin Salman excluiu a oposição. Como representante do poder e fruto desta chamada “Geração Y”, MBS olha a realidade como se nada do que foi feito anteriormente fizesse sentido. Tudo, portanto, deve e será alterado de modo definitivo. Aos 32 anos, conta com amplo apoio de mais da metade da população que tem até 25 anos de idade. O fenômeno global de subversão por parte da juventude também se manifesta nesta região do planeta. Mas MBS não quer levar democracia, imprensa livre, eleições ou independência dos poderes aos sauditas. Nada disso. Quer mudar o equilíbrio de forças internamente para se apropriar de forma unilateral do poder decisório. E tem obtido sucesso neste objetivo até o momento.

A urgência e a ganância estão relacionadas ao cenário mais amplo do Oriente Médio. Com a derrota do Estado Islâmico (EI) na Síria, a estratégia do eixo xiita de oposição às monarquias do Golfo Pérsico (lideradas justamente pela Arábia Saudita) também tem se consagrado como vitoriosa. A aposta de Rússia e Irã na manutenção de Bashar al-Assad na presidência da Síria se mostrou acertada. Ao derrotarem o EI, mudaram também o equilíbrio de forças regional. 

A ascensão de Donald Trump nos EUA e sua política de America First deixaram o território livre para as novas potências se apropriarem e redesenharem a região premiando os aliados Hamas e Hezbollah. Como sempre escrevo, os acontecimentos posteriores também incluíram neste eixo a Turquia e o Catar.

Mohamed Bin Salman e o Rei Salman não estão satisfeitos com todas essas mudanças. Por isso cobraram – e ganharam, mesmo que tardiamente – apoio mais efetivo do governo Trump. 

Encarregados hoje de alterar esta realidade, dois rapazes sem nenhuma experiência política: o próprio MBS e o genro de Trump e conselheiro sênior da presidência americana, Jared Kushner. Certamente, MBS tem mais poder e suas decisões têm mais impactos regionais do que Kushner. Mas esta parceria entre ambos – MBS e Kushner – é bastante representativa deste momento histórico e da fragilidade da estratégia internacional deste governo americano. De um lado, Vladimir Putin, Bashar al-Assad, Recep Tayyip Erdogan (presidente da Turquia), o xeque Hassan Nasrallah (líder do Hezbollah) e o aiatolá Ali Khamenei (líder supremo do Irã). Correndo atrás do prejuízo, Jared Kushner e MBS.

Aliás, é preciso deixar claro que MBS está com o poder interno controlado neste momento. Mas, ao alijar completamente os aliados históricos que mantinham o equilíbrio na Arábia Saudita, certamente passou a colecionar inimigos.  Mesmo passando a dominar diretamente todos os mecanismos de poder coercitivo do reino (exército, polícia e Guarda Nacional), não há qualquer garantia de que toda esta movimentação criada por Bin Salman não venha a ser confrontada pelos poderosos excluídos do processo decisório.

Na política externa, MBS está pisando em falso: não tem conseguido vencer os rebeldes xiitas houthis no Iêmen (armados e financiados pelo Irã) e não conseguiu conquistar a opinião pública libanesa, mesmo depois de ter exigido a renúncia do primeiro-ministro libanês e aliado Saad Hariri. A demanda da Arábia Saudita para que o Líbano realize a deposição das armas do Hezbollah é compreendida pela população libanesa como irreal, na medida em que hoje o estado nacional libanês tem menos poder de fogo que o próprio Hezbollah.

Fora isso, ao pressionar o Catar, conseguiu não apenas a mudança de fidelidade do ex-aliado (tornando-o claramente parte do eixo xiita a partir da mão estendida em auxílio pelo Irã), mas também a “implosão” do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês), grupo forte na região sustentado pela própria Arábia Saudita, além de Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait, Omã e Catar.

Na prática, sob o ponto de vista americano, os EUA estão empenhando todo seu posicionamento histórico no Oriente Médio em Mohammed Bin Salman.  Isso se deve, em boa medida, à falta de estratégia internacional do governo Trump. Ao apostar apenas em MBS, o presidente americano tem a expectativa de que a jovem e errática liderança saudita consiga criar um cenário em que seja possível não apenas confrontar os inimigos regionais de Washington, mas principalmente construir uma nova realidade em que os sauditas passem a agentes e fiadores da retomada do processo de paz entre palestinos e israelenses. Esta é a ambição de Trump, considerando como ponto central de seu pensamento a permanente obsessão em apresentar resultados superiores aos do antecessor Barack Obama.

O problema para a Casa Branca é que esta promessa não realizada deixou os EUA num lugar de profunda insegurança estratégica.  Por enquanto, para ser muito claro, os americanos ainda não obtiveram qualquer ganho no Oriente Médio, muito pelo contrário. MBS está conseguindo a proeza de transformar a Arábia Saudita num território imprevisível e, ao mesmo tempo, causando perdas sucessivas aos americanos e seus aliados regionais. Enquanto isso, o plano de expansão iraniana vai sendo consolidado sem maiores dificuldades, inclusive com a criação de uma base militar da República Islâmica em território sírio. Veja a reportagem da BBC.