Israel pode entrar em confronto com o Irã

16 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky Este é um momento muito delicado no Oriente Médio. Tenho debatido por aqui a grande movimentação interna e externa da Arábia Saudita. É importante ter em conta que todo este conflito doméstico é apenas um sintoma da grande reviravolta que se espalha pela região. Ela está relacionada a dois fatores principais: o redesenho do equilíbrio de forças histórico e a vitória sobre o Estado Islâmico (EI). Ambos os fatos, inclusive, estão relacionados entre si. 

O ponto fundamental é a ausência de estratégia internacional americana. Em função das suspeitas relações com a Rússia, há um distanciamento histórico entre Washington e o Oriente Médio. É claro que seria ingênuo culpar apenas Donald Trump. O governo de Barack Obama, ao entender que seria impossível avançar nas negociações de paz entre israelenses e palestinos, preferiu se dedicar a assuntos nos quais pudesse conquistar resultados práticos. E, de forma a ser justo, é importante também levar em consideração a incapacidade das potências ocidentais de reajustar e reconstruir alianças durante e após a Primavera Árabe. 

Durante o processo de questionamento interno pelas populações árabes, os ocidentais – históricos aliados das ditaduras locais – se perderam pelo caminho. Os europeus se fecharam, rezando para que o fenômeno passasse rapidamente e os países encontrassem por si só uma maneira de se reconstruir. Isso não aconteceu e as consequências deste isolamento europeu são sentidas até agora, com milhões de refugiados chegando a pé ou em balsas ao continente, transformando de maneira drástica o próprio cenário político interno. Este é um ponto.
 
Em outro aspecto, além da estagnação do processo de paz entre israelenses e palestinos, Obama – igualmente estupefato pela incapacidade de interpretar e construir alianças após a Primavera Árabe – teve de lidar com dois grandes desafios (ambos originados justamente a partir da Primavera Árabe na Síria que culminou na Guerra Civil local): o fortalecimento e ganho territorial do Estado Islâmico; e os ataques com armamento químico promovidos pelo ditador sírio Bashar al-Assad contra a própria população civil. 

Diante desses dois acontecimentos, Obama preferiu sair em busca de duas vitórias capazes de conferir sucesso histórico à política internacional de seu governo: a aproximação com Cuba e a assinatura do acordo sobre o programa nuclear do Irã. Em ambos os casos, o ex-presidente americano obteve sucesso. 

No entanto, todo esse distanciamento permitiu que o Oriente Médio ganhasse um novo patrão: Vladimir Putin, que apostou e conseguiu manter Bashar al-Assad na Síria e, ao mesmo tempo, derrotou o EI (mesmo com o auxílio de forças americanas que lutaram em conjunto com os guerrilheiros curdos, sempre é importante mencionar). Outra aposta bem-sucedida da Rússia foi a candidatura de Donald Trump. O improvável candidato venceu a corrida interna do Partido Republicano e, posteriormente, conquistou a Casa Branca, numa campanha pesada contra a Democrata Hillary Clinton – campanha esta objeto de investigação das agências de segurança dos EUA em virtude de sinais cada vez mais claros de interferência de Moscou em favor de seu candidato. 

Considero fundamental traçar este breve histórico de modo a deixar claro que o cenário atual é resultado de todas as ações e omissões listadas acima. 

No Oriente Médio dos dias atuais, a Rússia dá as cartas e premia aliados, notadamente o Irã. A movimentação em curso promovida pelo príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman (MBS) está profundamente relacionada a este histórico recente. No campo externo, MBS considera fundamental conter o sucesso da estratégia iraniana. Para MBS, o sucesso do eixo xiita do qual o Irã é protagonista precisa ser revertido. E aí nasce a improvável convergência de preocupações e interesses entre Arábia Saudita e Israel, países que não mantêm qualquer relação. 

Nos escombros da Síria, o Irã luta para firmar posições no território. O fato novo recente é a denúncia da BBC de que o país estaria construindo uma base militar no país. Como foco permanente de preocupação do governo de Israel, a presença iraniana em sua fronteira é o que se chama de “linha vermelha”. Não apenas o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, nem qualquer chefe de governo israelense iria considerar a possibilidade de conviver com a Guarda Revolucionária Iraniana instalada na fronteira do país. 

A guerra contra o Hezbollah, em 2006 (milícia xiita armada pelos iranianos), é um aspecto fundamental da história recente. Se Israel não pode eliminar o grupo terrorista libanês, precisou aprender a lidar com a ameaça permanente à porção norte de seu território. A inclusão de uma base do Irã neste cenário certamente não será algo que os israelenses aceitarão passivamente. Mas aí é preciso lembrar, como escrevi, que há um novo patrão regional. E ele pensa e age de maneira distinta aos interesses conjuntos de Israel e Arábia Saudita. 

O acordo trilateral entre Rússia, Jordânia e EUA estabeleceu distâncias mínimas entre os iranianos e as fronteiras de Israel e Jordânia (a Jordânia, também parte do eixo sunita, também considera se considerada ameaçada pela expansão iraniana). A questão é que este acordo é frágil. Em alguns pontos do mapa, ele determina que a Guarda Revolucionária Iraniana (GRI) e os demais grupos xiitas que operam em conjunto com a República Islâmica na Síria mantenham-se distantes no mínimo a 20 quilômetros da fronteira. No entanto, em outros locais, esta distância cai para apenas cinco quilômetros. 

Inicialmente, a posição de Israel era de que o Irã e seus aliados deveriam deixar por completo o território sírio. Como isso é improvável, a demanda israelense havia caído, em setembro, para algo entre 50 e 60 quilômetros. Agora, a realidade no solo mostra que a Guarda Revolucionária Iraniana e seus aliados estão quase que formalmente autorizados a estacionar nas fronteiras de Israel. 

É bastante improvável que o governo de Israel aceite esta situação de maneira passiva. E, graças à inexistência de estratégia internacional da administração Trump, o rompimento prático do acordo sobre o programa nuclear iraniano acaba por reforçar a realidade atual do Oriente Médio; não há contatos entre as autoridades de EUA e Irã. 

No momento em que a Arábia Saudita quer mesmo empurrar os israelenses para atuar na contenção do projeto regional expansionista do Irã, Jerusalém pode se ver envolvida em mais um conflito, desta vez contra o Hezbollah e, como fato novo, diretamente com a Guarda Revolucionária Iraniana. Para evitar este desastre – que certamente trará muitos prejuízos humanos e materiais – existe por ora apenas uma figura capaz de negociar com todas as partes envolvidas: o presidente russo, Vladimir Putin. Além de reorganizar o equilíbrio de forças regional, cabe agora a Putin decidir se haverá guerra ou paz. Seu plano está funcionando perfeitamente.