As graves consequências aos americanos da política externa de Trump

21 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky Depois de sua longa viagem à Ásia, o presidente americano, Donald Trump, assiste às consequências de sua atuação pouco estratégica também no comércio internacional, setor de extrema relevância a todos os presidentes dos EUA. O setor não é apenas uma peça-chave no desenvolvimento econômico doméstico, mas também no processo que culminou na liderança global, uma vez que os americanos possuem o principal mercado consumidor do mundo, ponto fundamental na interação geopolítica. 

Seguindo a linha de “coerência” de seu slogan ainda um tanto vazio de “America First”, Trump optou por retirar os EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, projeto conhecido pela sigla em inglês TPP. Outros 11 países faziam parte do acordo: Japão, Austrália, Canadá, México, Peru, Chile, Malásia, Vietnã, Nova Zelândia, Cingapura e Brunei. Se antes, com os EUA, a cooperação respondia por 40% da economia mundial, depois que Trump anunciou a saída do país em janeiro, este dado caiu para 15%.

A questão é que Trump imaginava que a decisão americana teria o poder de decretar o fim do TPP. Mas aí, justamente em reunião paralela ao encontro da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), cúpula da qual os EUA fazem parte, os 11 países órfãos anunciaram que pretendem seguir com o TPP, tendo inclusive acordado aspectos fundamentais do novo tratado. O processo de construção do novo TPP segue seu curso, mas há um tanto de capital simbólico nesta decisão. O foco principal está na adaptação. Se Washington sob a liderança de Donald Trump quer assumir uma posição de isolamento, as demais economias planetárias têm capacidade e interesse de seguir adiante.

E estamos falando de países com extenso histórico de alianças com os EUA, casos de Canadá, Japão, Chile, México e Austrália, por exemplo. Outro item importante tem a ver com o rompimento de um fundamento da política externa americana. Como escrevi, o comércio é ponto central da construção de alianças internacionais. Ou alguém imaginava que os EUA teriam alcançado a posição de liderança global apenas em função de seu incontestável poderio militar? Na verdade, comércio e agenda de segurança caminham lado a lado.

Sem as alianças comerciais, os EUA colocam em xeque um ponto muitas vezes esquecido, mas que é base de sua presença global: o controle dos mares. Isso porque as autoridades americanas monitoram os oceanos do planeta também em função do comércio marítimo. Reduzir seu volume – ou, ainda mais grave, alijar-se voluntariamente de um projeto grandioso como o TPP – significa pôr em risco um dos pilares da presença internacional dos EUA. Com a intenção declarada de os 11 países restantes em seguir adiante mesmo sem os americanos, os EUA passam a depender de maneira mais contundente de seus aliados, especialmente do Japão – o principal interessado na contenção da expansão regional e naturalmente global da China.

E, claro, vale lembrar que, como escrevi, a construção de alianças militares em todas as partes do mundo sempre se deveu à capacidade americana de trocar benefícios e cortejar os demais países com a possibilidade de comércio. Dar fim a esta prática pode trazer consequências temerárias à segurança interna americana e a sua presença internacional.

Pouca gente se deu conta, mas a sucessão de equívocos comerciais com seu “America First” é mais um dos capítulos do processo de desmonte promovido por Donald Trump do status alcançado pelos EUA ao logo do século 20.