Os segredos do sucesso de Vladimir Putin

24 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky Desde que foi eleito presidente da Rússia, em março de 2000, Vladimir Putin se reveza na liderança do país. Os cargos variaram um pouco neste século, mas o fato é que, como primeiro-ministro ou presidente, Putin é o homem forte da Rússia há 17 anos. E agora, graças à sagacidade das alianças que costurou, conseguiu restaurar a atividade imperial russa com a qual sempre sonhou. Mas não se confudam. Não estamos assistindo ao renascimento da União Soviética. Putin não coloca os aliados contra a parede para que escolham entre comunismo e capitalismo. A dicotomia não existe mais. A expansão imperial russa é inclusiva, desde que todos aceitem o projeto de Putin. 

A vitória sobre o Estado Islâmico é um aspecto fundamental neste processo. Com Donald Trump isolado em seu nacionalismo vazio, é Putin quem dá as cartas no Oriente Médio. Quando a Rússia aderiu ao esforço de manutenção de Bashar al-Assad na presidência síria, em novembro de 2015, o Kremlin entendeu que os grandes gastos e o risco de perdas militares consideráveis carregavam um propósito final. Hoje, estamos assistindo ao início da vitória e da colheita. 

Putin recebeu Bashar al-Assad em Sochi, balneário russo. Foi a primeira viagem internacional do ditador sírio desde 2015. O presidente russo recebeu também dois de seus principais aliados – e beneficiários – neste redesenho das forças do Oriente Médio: o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente iraniano, Hasssan Rohani. Mas Putin está disponível para todos os atores regionais: conversou com o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sissi, com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e com o Rei Salman, da Arábia Saudita. Também se reuniu com facções palestinas, grupos curdos e líbios. 

Por mais que esteja evidente que Putin está de um lado desta balança regional (o mesmo lado de Irã, Turquia, Hamas, Hezbollah e Síria), o líder russo entende que é chegado o momento de criar de fato o novo Oriente Médio. E, para que isso aconteça, é preciso dialogar com todas as partes envolvidas. E, muito em função de sua atuação na vitória sobre o EI, mas também em graças à forma como construiu a Rússia desde março de 2000, todos os atores regionais conferem a Putin alguma forma de legitimidade. A mesma legitimidade que este grupo tão diverso jamais irá conferir a Donald Trump. 

O primeiro aspecto tem a ver com reconhecimento mútuo. Assim como muitas das lideranças regionais, Putin acumula poder e não dá sinais de que irá deixar a presidência russa num futuro próximo. O líder russo é espelho e aspiração. Há 17 anos no trono, é, na prática, um ditador como muitos dos que se espalharam e mantiveram seus reinados pelo Oriente Médio. 

Outro ponto de interesse mútuo tem a ver como a maneira como trata imprensa e oposição. Sem temor de censuras e sanções internacionais, Putin e seus aliados perseguem jornalistas e opositores sem constrangimento. Para os ditadores do Oriente Médio e para os que pretendem permanecer em seus cargos sem prazo de validade, o presidente russo é “um dos nossos”. E, mais além, “é um dos nossos” com capacidade militar e armamento similar aos americanos. E, para a sorte desses ditadores, sem as exigências morais e escrutínios aplicados pelo governo dos EUA e principalmente pela imprensa americana. 

A Rússia quer agora estabelecer novos parâmetros e soluções políticas. Este é o pulo do gato da política externa do país. Não basta apenas vencer no campo de batalha. É preciso ser considerado um centro articulador em tempos de pacificação. Para isso, Putin quer realizar o que chama de “Congresso do Povo Sírio” em paralelo à Conferência de Paz liderada pela ONU em Genebra. 

O “Congresso do Povo Sírio” pretende amarrar ou ao menos começar a redigir o futuro político da Síria. Importante lembrar sempre que, naturalmente, a visão do presidente russo exclui automaticamente os grupos de oposição a Bashar al-Assad. Estes estavam reunidos sob os auspícios da Arábia Saudita numa conferência em Riad denominada de Alto Comitê de Negociações (HNC, em inglês). A liderança do grupo estava a cargo de Riyad Hijab, ex-primeiro-ministro da Síria e que se opunha frontalmente a que Bashar al-Assad ocupasse qualquer cargo no país após o fim da guerra civil. Hijab pediu demissão do HNC, deixando dúvidas sobre o futuro da organização. É possível que o grupo simplesmente perca valor e se desmanche, fortalecendo ainda mais a posição da Rússia. 

É preciso também abordar algumas diferenças práticas entre Rússia e EUA que favorecem Moscou a partir da visão dos atores regionais. Enquanto as sucessivas administrações americanas criam planos para o Oriente Médio com o propósito de estabelecer soluções definitivas num ambiente muito complexo, as ambições russas são mais modestas, sob a avaliação das partes envolvidas. 

Os russos colocam em prática zonas de segurança e interrupção de conflitos (graças a elas conseguiram vencer o EI) e entendem as demandas particulares de cada um: os russos se apresentam como intermediários razoáveis capazes de sinalizar positivamente aos planos de expansão do Irã, mas sem fechar as portas ao diálogo com os israelenses; estão de forma evidente no barco do eixo xiita, mas continuam a receber os sauditas em busca de equilíbrio. Enquanto Washington está distante e – quando se mostra disponível – apresenta projetos muito ideológicos, Putin teve sucesso ao se consolidar como liderança pragmática. Por isso encontrou eco regional e, também por isso, está conseguindo cada vez mais substituir os EUA no Oriente Médio.