Estado Islâmico pode estar em busca de base de atuação alternativa no Sinai

28 de Novembro de 2017
Por Henry Galsky O grande ataque terrorista a uma mesquita da corrente sufista no norte da Península do Sinai pode representar o primeiro passo de um processo de reconstrução do Estado Islâmico. Derrotado na Síria e no Iraque, o EI pode estar em busca de alternativas para se reestruturar. O autoproclamado califado ruiu na Síria e no Iraque, mas evidentemente a ideologia permanece. 

O atentatado à mesquita sufista tem a marca do EI, grupo terrorista fundamentalista sunita que ataca outras correntes islâmicas. Até seu surgimento, havia certo pudor para tornar muçulmanos vítimas de atentados – mesmo que de outras correntes de interpretação. A própria al-Qaeda, de Osama Bin Laden, estabelecia este limite e seus ataques eram sempre justificados a partir de interpretações dos clérigos internos encarregados de leituras muito particulares. O EI se desvencilhou deste peso. Pôs no alvo todos os muçulmanos não-sunitas e não-adeptos ao salafismo.
 
O eventual florescimento de um novo modelo de atuação do EI na Península do Sinai chama atenção pelos poucos recursos empregados. A estimativa é de que apenas cerca de mil combatentes se localizem nesta parte do Egito. A filial atende pelo nome de Wilayat Sinai, uma das tantas facções a jurar fidelidade ao EI na sequência da ascensão internacionail do grupo terrorista.  É curioso também notar a incapacidade do exército egípcio para impedir um atentado como o realizado contra a mesquita salafista. 

Ao contrário de Iraque, Síria e Líbia, o Egito não é um ex-país. Ou seja, não é um estado falido. Há, na verdade, um excesso de autoridade presente na vida nacional. Após a Primavera Árabe e a eleição presidencial de Mohamed Mursi, da Irmande Muçulmana, o país sofreu um golpe de estado, em 2013, quando militares liderados pelo general Abdel Fatah al-Sissi tomaram o poder. 

O general-presidente tem tentado agir no norte da Península do Sinai não apenas a partir do envio de homens, mas também de aeronaves. Desde os Acordos de Camp David, em 1979 (que estabeleceram relações com Israel), o Deserto do Sinai é uma zona desmilitarizada. Apesar disso, de forma a combater o Wilayat Sinai, o governo do Egito obteve autorização de Israel para realizar operações de combate à filial do EI. 

No entanto, nada disso impediu a realização do ataque. E certamente o Cairo irá retomar ações e empregar recursos de forma a vigiar ainda mais e conter as operações do grupo terrorista na região. 

Do ponto de vista geopolítico, imaginar o renascimento e a livre atuação do EI entre Egito, Israel e o território palestino de Gaza seria trabalhar com a lógica do cobertor curto com consequências possivelmente tão graves como as que ocorrem na Síria e no Iraque. Basta fazer o exercício rápido de projeção considerando a possibilidade de o EI ter acesso, por exemplo, ao Canal de Suez, por onde passam 8% de todo o comércio por via marítima do mundo e 5,5% da produção de petróleo mundial.
 
É possível que para o Wilayat Sinai a movimentação atual seja justamente a de refundar o EI num novo território. Mas é improvável que, após o conhecimento adquirido a partir do combate ao grupo terrorista na Síria e no Iraque, os importantes atores regionais simplesmente assistam a esta tentativa passivamente. Se o Egito luta em três frentes – no Sinai, na Líbia e no restante do próprio território egípcio – está claro que será preciso chamar o concerto de atuação regional para agir contra a filial do EI no Deserto do Sinai.