Os planos do Irã na Cisjordânia e os ataques recentes de Israel na Síria

05 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky Há indícios de que Israel teria realizado dois ataques ao território sírio – um deles à recém-descoberta base iraniana instalada no país. Estes são episódios inseridos do processo de reconstrução do Oriente Médio especialmente a partir do fim da Guerra Civil na Síria e da vitória imposta principalmente pelo eixo xiita (sob a liderança da Rússia) ao Estado Islâmico. Com o declínio do protagonismo americano neste novo Oriente Médio, os israelenses estudam como se proteger e atuar num ambiente realmente novo e onde seu principal antagonista geopolítico, o Irã, está do lado vitorioso do jogo. 

Lembrando sempre o posicionamento consolidado de Israel de que, em função da história de ataques sofridos pelo país numa região sempre hostil, o Estado judeu não pode estar em posição militar igual ou inferior aos demais atores. Portanto, quando um novo eixo de poder é formado e Israel vive momento de isolamento (complementando, também em função de uma perceptível liderança russa, não americana), o desafio é bastante novo, apresentando novas questões às lideranças do país. 

Diante disso também a cúpula do governo tratou de minimizar a presença iraniana na Síria, num franco contraste em relação ao próprio histórico recente de declarações e atuação internacional. O ministro da Defesa, Avigdor Liberman, disse à versão online do Yedioth Ahronoth que as posições do Irã na Síria estão resumidas “a algumas centenas de especialistas”. Esta é uma declaração contraditória em relação ao posicionamento recente de Israel e pode ser explicada por uma série de razões, dentre elas o total desinteresse do Estado judeu de partir para um confronto direto com o Irã neste momento (muito embora eu considere a possibilidade real de que este confronto – de maneira direta ou indireta – esteja no horizonte de israelenses e iranianos). 

Além disso, pela própria política de bastidores onde a Rússia ocupa a posição de intermediária entre todos os atores regionais, é provável que os iranianos também não tenham interesse em partir para o confronto – e por isso sequer admitiram o ataque israelense à base do país–, principalmente porque estão num processo vitorioso de se estabelecer amplamente pelo Oriente Médio. 

Talvez a Síria já não seja mais um problema para Israel. Num cenário onde a Rússia dá as cartas e é a responsável integral pela permanência do ditador Bashar al-Assad no cargo de presidente do país, Jerusalém pode ter decidido aplicar olhar absolutamente pragmático, onde é possível estabelecer alguma forma de acomodação graças ao protagonismo de Vladimir Putin. O ataque à base iraniana pode ser encarado como mais uma das tantas mensagens encaminhadas a Moscou. Na prática, Israel não mantém a ilusão de que os iranianos irão deixar a Síria (já que entendem muito claramente os significados e fidelidades envolvidos na construção do eixo vitorioso formado por Rússia, Irã e Assad), mas querem estabelecer limites. 

E, para um governo contestado internamente como o de Benjamin Netanyahu, o termo “acomodação” auxilia muito neste momento de crise doméstica. É melhor encontrar um meio do caminho – mesmo que isso signifique ter de conviver com mais uma base iraniana na fronteira norte do país – do que precisar admitir que a política externa do governo não conseguiu conter os avanços do Irã pelo Oriente Médio. O foco agora parece ser contar com a boa vontade da Rússia no processo de estabelecimento de limites a esta movimentação. É possível que a fronteira de Israel com a Síria retorne ao status-quo anterior à Guerra Civil: a paradoxal calmaria tensa. A melhor solução para os israelenses. 

O problema para Israel é a chamada agenda oculta iraniana. Todo mundo já sabe que o propósito do Irã é estender sua presença de seu território até o litoral do Mar Mediterrâneo, projeto em curso e que deve mesmo se concretizar. No entanto, em artigo publicado por Seth J. Frantzman no Jerusalem Post, Eran Lerman, vice-presidente do Instituto de Estudos Estratégicos de Jerusalém, afirma que o objetivo principal de Israel hoje é impedir que a Jordânia seja desestabilizada pelos iranianos. De acordo com Lerman, o foco do líder supremo do Irã, o aiatoloá Ali Khamenei, seria “transformar a Cisjordânia na próxima Faixa de Gaza”. Isso significaria, portanto, tirar a Autoridade Palestina (AP) do comando, transferindo-o para um grupo terrorista aliado a Teerã. Este grupo terrorista seria, possivelmente, o Hamas. 

A experiência em Gaza tem sido um fiasco para Israel e também para os palestinos. Desde que o Estado judeu deixou o território, em 2005, ele foi tomado pelo Hamas, que, durante todo este período, esteve menos preocupado em desenvolvê-lo do que em consolidá-lo como base de ataques com mísseis a Israel – que, por sua vez, revida. Este movimento de ataques e revides já provocou duas guerras abertas, causando milhares de vítimas, em sua maioria, palestinas.
 
A partir da saída de Israel de Gaza, em 2005, o território costeiro foi ocupado pelo Hamas, que expulsou a AP – relegada, em função disso, a administrar a Cisjordânia. Imaginar que os iranianos encaram a possibilidade de transformar a Cisjordânia em Gaza significa replicar todos os acontecimentos dos últimos 12 anos ao território. Na prática, isso decretaria não apenas a morte do processo de paz, mas também colocaria a região central de Israel – onde se concentram a maioria das grandes cidades israelenses, entre elas Tel Aviv e a capital do país, Jerusalém – sob o alvo do Hamas e do Irã. Se de fato este for o foco da política externa do Irã, não apenas Israel deve se preocupar, mas todos os atores, inclusive EUA e as potências ocidentais.