Donald Trump tira da manga a carta Jerusalém: mais problemas regionais a caminho

06 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky Em Jerusalém, o equilíbrio é sempre muito frágil e está permanentemente por um fio. Esta foi a conclusão do texto que publiquei no do dia 24 de julho de 2017 em que analisava o cenário em torno da onda de manifestações, violência e declarações políticas a partir da decisão de Israel de, após ataques a policiais do país no Monte do Templo/ Nobre Santuário, instalar detectores de metal na entrada do complexo onde está localizada a Mesquita de al-Aqsa. Na ocasião, Israel precisou voltar atrás e retirar o equipamento de forma a frear a violência. 

Uma crise de proporções imprevisíveis seria causada pela instalação de detectores de metal. Pois é. Agora, o presidente americano puxa novamente de sua manga a carta de Jerusalém, a polêmica em torno do status oficial da cidade como capital de Israel e a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém. Basta comparar dois parágrafos para compreender o potencial de desequilíbrio que a decisão americana carrega de maneira intrínseca. Não por acaso, o presidente Trump levantou esta bola e imediatamente passou a telefonar às principais lideranças regionais: além dos interessados diretamente Israel e Autoridade Palestina, Egito, Jordânia e Arábia Saudita. 

Obviamente, fora a cúpula do governo israelense, a reação internacional não foi positiva. No mundo muçulmano, a vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e, a partir disso, a reunificação da cidade pelos israelenses ocupam lugares imaginários sensíveis: a derrota militar e religiosa. Em todo o mundo muçulmano, líderes religiosos alimentam a paranoia e as teorias de conspiração de que Israel quer alterar o status quo da cidade.

Isso significa, na prática, que pregações religiosas islâmicas há décadas reforçam a ideia de que os judeus pretendem destruir o complexo da Mesquita de al-Aqsa para reconstruir o Grande Templo judaico que existia na cidade e que foi destruído de forma definitiva pelos romanos no ano de 70 da Era Comum. Toda esta narrativa tem grande poder sobre os corações dos fieis muçulmanos espalhados pelo planeta. E é a tudo isso que se faz referência quando as lideranças políticas muçulmanas dos dias atuais fazem menção ao termo  “alteração do status quo de Jerusalém”. 

Sob o ponto de vista exclusivamente político, é difícil compreender as motivações de Donald Trump, principalmente diante dos caminhos que o próprio governo americano tem percorrido com velocidade nos últimos meses. Jared Kushner, conselheiro especial da presidência e genro de Trump, tem se reunido com lideranças regionais, especialmente com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman (o famoso MBS). Está muito claro que a preocupação de Washington a partir de demandas claras das monarquias sunitas do Golfo Pérsico – sob a liderança dos sauditas – conter a rápida expansão regional do Irã. Nunca os interesses de Israel e desses países árabes estiveram tão alinhados. Nunca a perspectiva de um amplo acordo de paz e reconhecimento mútuo entre israelenses e os países árabes do Golfo foi tão possível, para não dizer provável. 

Quando Donald Trump puxa da manga a carta de Jerusalém, ele joga um banho de água fria sobre este processo. Para ser explícito, ele marca um gol contra. E este é um problema menor para os EUA do que para Israel. Num momento difícil do governo Netanyahu em que a própria população se manifesta publicamente para que as relações do primeiro-ministro do país com seus amigos da iniciativa privada sejam investigadas, pensar na possibilidade de uma nova crise regional – que pode mesmo dar início a mais uma intifada – é um problema considerável no horizonte da coalizão governamental.

É possível argumentar que uma crise de grandes proporções pode ser um motivo para unificar o país e esfriar as investigações contra Bibi, mas a verdade é que um acordo amplo com países historicamente hostis a Israel seria um resultado grandioso a se apresentar e que aumentaria significativamente o capital político e histórico do primeiro-ministro. Trocar esta possibilidade por mais uma crise com palestinos e com todo o mundo muçulmano não é o tipo de decisão estratégica que Benjamin Netanyahu tomaria voluntariamente. Muito embora a decisão de Trump seja motivo de celebração pelo governo israelense. E nem seria possível imaginar outro tipo de reação. 

O caminho seguido pela atual administração americana é o tipo clássico de presente de grego aos israelenses. Por uma razão muito simples. O Estado judeu já controla a cidade de Jerusalém, mesmo a parte oriental. Não há evidências de que esta situação irá se alterar em qualquer ponto previsível do futuro. Em Jerusalém estão a residência do primeiro-ministro, os principais organismos do governo, o Ministério das Relações Exteriores e o Parlamento de Israel, o Knesset (foto). Sob o ponto de vista prático, Jerusalém reunificada é a capital de Israel desde 1967, como sempre escrevo por aqui (entre 1948 e 1967, a parte ocidental da cidade já era considerada por Israel como a capital do país). E faço este aparte porque esses são dados concretos, não se trata de uma opinião. 

Para Israel, a declaração por parte dos EUA sobre o status da cidade não muda absolutamente nada na vida real. Não muda nada sob qualquer aspecto positivo, já que os israelenses não obtêm qualquer ganho direto com a decisão. Muito pelo contrário, têm muito a perder. Escrevi por aqui que há um temor real por parte dos analistas em Israel de que o foco do Irã seja a desestabilização da Jordânia de forma a alterar o equilíbrio de forças no território palestino da Cisjordânia. Sob esta perspectiva, nada melhor aos iranianos que reforçar temores religiosos islâmicos históricos e aumentar ainda mais as suspeitas dos palestinos da Cisjordânia sobre os EUA. Como antagonista estratégico de EUA e Israel, o Irã passa a encontrar ainda mais eco também entre os palestinos. 

Para os EUA, que sob o governo de Donald Trump são vistos com cada vez menos legitimidade no papel de intermediários do processo de paz, a decisão pode marcar mais um aspecto do processo de alijamento internacional voluntário. Ou seja, mais uma etapa do orgulhoso e inócuo “America First” de Trump. Quanto mais os americanos são encarados regionalmente como despreparados no exercício do papel de intermediários, mais os russos ganham legitimidade. Putin mais uma vez agradece. 

Pensando com a cabeça de Trump em sua não-estratégia internacional, este é mais um passo de “coragem”. Sempre tendo o antecessor Barack Obama como comparação, o atual presidente americano pode ter em mente dois objetivos: ser considerado como o presidente que tomou medidas que Obama não foi capaz de tomar; e a certeza de que tem força o bastante de seguir adiante mesmo sem a concordância de nenhum dos atores regionais. Para Trump, esta é uma prova de força de seu “America First”. Para o restante do mundo, é mais uma evidência de que décadas de construção de uma linha de política externa em Washington estão indo pelo ralo fazendo novos estragos pelo caminho.