O messianismo no centro da política internacional

15 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky
Legenda: a mesquita xiita de Jamkaran, no Irã

Entre as três grandes religiões monoteístas do mundo, o Judaísmo inaugurou a narrativa messiânica. Posteriormente, o Cristianismo se estruturou a partir da realização, de acordo com seus fiéis, desta promessa. Ele nasce como continuidade do Judaísmo graças à história de vida, morte e ressurreição de Jesus. O que pouca gente sabe é que o Islamismo também crê no messianismo com similaridades e diferenças em relação ao Judaísmo e ao Cristianismo. E toda esta crença passa a ser importante na política internacional. 

Como escrevi no texto sobre as razões de Trump em reconhecer Jerusalém como capital de Israel, a fé está na base de muitos dos atores mais relevantes da política internacional. O grande apoio doméstico dos cristãos evangélicos durante a eleição do atual presidente americano foi fator fundamental na decisão de Trump – e esta influência certamente se repetirá em muitas outras decisões, sejam elas domésticas ou externas. 

E aí retorno ao messianismo no Islã. Especialmente entre os xiitas, corrente minoritária islâmica, o mito messiânico é muito relevante. Entre os sunitas também – a maioria dos muçulmanos –, mas a interpretação que as duas linhas islâmicas fazem é um pouco distinta. Apesar de representar algo entre 10% a 13% de toda a população muçulmana (cujo total hoje é de 1,8 bilhão de pessoas, 24% do planeta), um dos principais atores regionais do Oriente Médio é majoritariamente xiita, o Irã. No pais, 90% da população são xiitas. 

E boa parte dos iranianos considera a narrativa messiânica xiita. De acordo com a tradição deste grupo, o Juízo Final também está previsto em profecias antigas. A linha de pensamento dos 12 Imãs acredita que o décimo-segundo imã, nascido em 868 da Era Comum, se escondeu do olhar humano e irá reaparecer para resgatar os muçulmanos durante um período de grande calamidade. Este imã é conhecido como o Mahdi, o Messias. Ainda de acordo com a crença, Jesus irá retornar como tenente de Mahdi. Neste momento, a Lei Islâmica, a Sharia, será imposta globalmente. Jesus, inclusive, forçará os não-muçulmanos à conversão. 
Muito embora o título de imã seja atribuído majoritariamente a um líder religioso encarregado das orações na mesquita, para os xiitas o imã é um sábio que guia os fiéis em todos os assuntos, religiosos ou não. 

Como se sabe, a crença religiosa é uma força importante nas relações internacionais. O cenário envolvendo os cristãos evangélicos nos EUA e a eleição e o governo de Trump deixam claro que esta é uma realidade também no ocidente. No Oriente Médio, a convergência entre religiosidade e política encontra sua origem e destino. 

O Irã, potência regional xiita, trabalha com esta força a todo o momento. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad costumava reunir seu gabinete em Jamkaran, localizada a 160 quilômetros da capital Teerã, cidade onde a tradição xiita acredita que o Mahdi reaparecerá. Ainda de acordo com a crença no Imã Desaparecido (ou Imã Oculto), seu retorno ocorrerá num momento histórico de caos e violência. 

Neste ponto, as narrativas americana evangélica e iraniana xiita se encontram e podem definir rumos e decisões políticas. Para parcela do eleitorado evangélico americano, a reconstrução pelos judeus do Grande Templo judaico de Jerusalém irá precipitar o retorno de Jesus a partir do conflito óbvio que ocorreria entre israelenses e estados muçulmanos. Para os xiitas iranianos que creem no Mahdi, seu retorno estaria garantido num cenário de guerra aberta, especialmente contra infiéis em Jerusalém. No foco de ambos, o conflito permanente entre israelenses e palestinos, e, de forma mais ampla, entre israelenses e países muçulmanos. No meio disso tudo, o projeto político bem-sucedido de expansão regional do Irã e a instalação de bases militares na fronteira norte de Israel. 

Para apresentar dados concretos sobre a versão islâmica do Messias – e, portanto, sobre as crenças das pessoas comuns – vale mostrar a pesquisa realizada pelo Pew Research Center. Especificamente sobre a questão do Mahdi, o estudo realizado em 2012 mostra informações relevantes. Para 88% da população xiita do Iraque, o retorno do Mahdi, o décimo-segundo Imã, é iminente. Na Turquia, onde a população xiita não é majoritária, o dado é de 68%. Na Tunísia, 67% acreditam no retorno do Mahdi. Infelizmente, este estudo não foi realizado no Irã. 

É impossível numa época como a atual desconsiderar a narrativa messiânica na construção das muitas políticas externas. Dois dos principais atores internacionais – EUA e Irã – têm demonstrado sinais de que o messianismo é um dos nortes de seus posicionamentos domésticos e internacionais. A questão agora é saber se e quando essas linhas de oposição entrarão em choque real no Oriente Médio.