Mahmoud Abbas repete a histórica e improdutiva estratégia árabe

19 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky No encontro realizado em Istambul onde membros da Organização da Cooperação Islâmica (OIC, em inglês) vociferaram contra a decisão americana sobre Jerusalém, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, fez um pedido à comunidade internacional: que reconsidere o reconhecimento de Israel. Não, o presidente palestino não se manifestou sobre Jerusalém especificamente, mas usou o microfone para pedir aos demais países do mundo que deixem de reconhecer Israel como estado soberano. O pedido de Mahmoud Abbas apresenta um retrato não apenas do conflito israelense-palestino, mas da incapacidade de aplicação de um olhar pragmático sobre a realidade.

A estratégia da Autoridade Palestina segue uma linha coerente. Nos últimos 70 anos, a maior parte dos países árabes se nega a aceitar a existência de Israel. Desde que o país se tornou independente, em 1948, houve três grandes conflitos em que esses mesmos países tentaram pôr em prática o projeto do discurso sobre a não existência de Israel. No entanto, em todas as três oportunidades de embate militar (1948, 1967 e 1973), Israel se sagrou vitorioso e, apesar das negativas retóricas dos países árabes, continuou a existir.

Nos últimos anos, os países árabes continuam a procurar negar a existência de Israel. Jerusalém está no centro deste embate retórico. Esses mesmos países conseguiram politizar a Unesco, o organismo da ONU que deveria se dedicar à preservação da memória e do patrimônio cultural do planeta. E aprovaram a resolução que exclui o vínculo dos judeus com Jerusalém numa clara falsificação histórica.

Escrevi que a Autoridade Palestina segue uma linha estratégica coerente. E atua como seus vizinhos ao clamar à comunidade internacional que não reconheça Israel. No entanto, apesar de coerente, é preciso ser pragmático (o objetivo das análises que faço por aqui). A AP pode negar a existência de Israel, pode pedir à comunidade internacional que faça o mesmo, pode inclusive se sentir confortável e acolhida no encontro em Istambul organizado pelos demais países islâmicos. Mas, no final das contas, não apenas a AP, mas todos os países islâmicos que não reconhecem Israel têm um problema inegável: Israel existe. No ano que vem, completará 70 anos. E a bem da verdade não há no horizonte visível qualquer sinal de que deixará de existir.

Ao contrário de muitas das lideranças islâmicas presentes no encontro de Istambul, a liderança palestina volta para casa com uma questão prática que, mesmo diante de tanto barulho, ainda não foi capaz de responder: a estratégia palestina de negar a existência de Israel não tem funcionado se – este ponto é muito importante – o propósito da liderança palestina for a criação de um Estado palestino.

A negação sistemática de Israel tem sido a estratégia única aplicada nos últimos 70 anos. A questão em torno da decisão americana sobre Jerusalém é a lembrança mais óbvia da falência deste raciocínio. Negar a verdade histórica do profundo vínculo judaico com Jerusalém não transformará a cidade na capital do futuro e pretendido Estado palestino. Como numa regra de três muito simplória, a negação do vínculo judaico com Jerusalém está para o momento atual da mesma forma como a negação da existência de Israel está para os acontecimentos históricos dos últimos 70 anos. Esta maneira de transformar a realidade num mundo de faz de conta não foi capaz de se traduzir na criação de um Estado palestino.

Por isso, de maneira absolutamente pragmática, se o objetivo ainda for concluir o conflito com a criação de um país independente, os palestinos precisam rapidamente mudar de estratégia.

No entanto, o episódio da declaração americana sobre Jerusalém mostrou que a AP se encarrega apenas de seguir os caminhos mais óbvios. A causa palestina de criação de um Estado foi rapidamente sequestrada pelos “amigos” de sempre. Recep Tayyip Erdogan, o presidente turco que persegue jornalistas em casa e pretende se divulgar como o libertador muçulmano em sua política externa; o Irã em seu discurso anti-Israel permanente em busca de legitimidade e lastro entre a população mundial islâmica. Há poucas evidências de que iranianos e turcos estejam realmente engajados na criação de um Estado palestino. Ambos estão focados em suas batalhas particulares (o primeiro contra a criação de um Estado curdo, o segundo em busca de se consolidar a caminho do Mediterrâneo e até, quem sabe, tomar a Cisjordânia do próprio Mahmoud Abbas, uma vez que os iranianos mantêm aliança com o Hamas, grupo de oposição ao presidente palestino).

Vale lembrar sempre que o propósito final do Hamas nunca foi a criação de um Estado palestino democrático, mas a destruição de Israel e a construção de uma entidade nacional cuja lei islâmica, a sharia, seria imposta a toda a população entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão.

Além disso, por mais insatisfeito que esteja com a declaração de Trump, Mahmoud Abbas não pode alimentar o sonho de que irá, por si ou mesmo com o auxílio de alguns dos países islâmicos, tirar os EUA de qualquer cenário envolvendo negociações entre israelenses e palestinos. Mesmo que a atual administração americana esteja afastada de perspectivas internacionais, o projeto de Trump é superar o seu antecessor especialmente no conflito israelense-palestino. Se a ideia de Abbas é excluir os EUA, ele precisará congelar qualquer movimentação em busca de um Estado pelo menos até 2020. Ou torcer para Trump sofrer um impeachment em razão da interferência russa nas eleições americanas.

Mas, se a ideia for a de continuar a busca pelo Estado palestino, Abbas terá de dialogar com a administração Trump. Mesmo com Putin interessado (e bem-sucedido, diga-se) no processo de redesenho do mapa do Oriente Médio, o conflito israelense-palestino é o palco principal das Relações Internacionais. Imaginar que o presidente americano irá abrir mão disso é ilusório, apesar do cenário atual em que Washington alterou a forma de atuação em sua política externa. Aliás, a não-estratégia internacional americana está cada vez mais clara e interessa bastante ao conflito entre Israel e os palestinos. Mas este é assunto para outro texto. Por ora, está evidente que a ilusão compartilhada entre parte dos países árabes e a AP sobre Israel continua a ser incapaz de produzir resultados práticos e positivos aos palestinos. Esta é a mensagem pragmática de tudo o que está em curso desde a declaração sobre Jerusalém.