A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de acordo com Trump

22 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky O presidente Americano, Donald Trump, divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional (NSS, em inglês), um documento que provocou muita curiosidade em função da personalidade do atual ocupante da Casa Branca e sua resistência a padrões estabelecidos. No entanto, ao contrário do que se possa imaginar, as mais de 70 páginas que compõem o texto não correspondem a uma nova tendência acadêmica do governo, mas respondem a uma obrigação imposta pelo Congresso americano a todos os presidentes. Vale observar que, entre os presidentes recentes, Trump foi o que publicou o NSS mais rapidamente; em menos de um ano de mandato, enquanto Obama levou 16 meses e George W. Bush, 20 meses. Este dado é apenas uma curiosidade, claro.

O documento mostra um equilíbrio evidente entre a intenção dos redatores do texto em manter um alinhamento com o histórico de política de segurança e política internacional dos EUA e, ao mesmo tempo, conciliá-lo à personalidade do chefe – como em qualquer trabalho, a equipe encarregada do operacional lida com os dilemas que envolvem a submissão ao patrão enquanto que, diante deste chefe específico, teve de encontrar um meio do caminho aceitável de forma a não esticar a corda exageradamente. E aí, é preciso dizer, o resultado final é bem-sucedido. É possível perceber que o NSS cede em muitos pontos – o que surpreende, tendo em mente o leitor e aprovador final do texto, presume-se o próprio presidente – para, em outros momentos, estabelecer marcas muito claras da gestão Trump.

No todo, a ideia é reafirmar o compromisso do governo com quatro dos pilares permanentes da política de segurança americana: a proteção ao território nacional, a promoção da prosperidade no país, a preservação da paz por meio da força e o avanço da influência americana no mundo. Até aí, nenhuma surpresa. No entanto, na sequência, há a explicitação de dois adversários do país: China e Rússia. Ambos são mencionados como “potências revisionistas”, ou seja, países de grande poderio que tendem a questionar a liderança global americana em desafios militares, econômicos ou ambos.

O que surpreende ainda mais é a menção textual à influência russa em assuntos internacionais. “A Rússia faz uso de operações de informação como parte de ofensivas cibernéticas de forma a influenciar a opinião pública ao redor do globo. Suas campanhas de influência combinam operações secretas de inteligência e (a criação de) perfis falsos online com mídia financiada pelo Estado, intermediários de terceiros usuários de redes sociais ou ‘trolls’”.

Pode parecer uma peça de acusação do Comitê do Partido Democrata contra Trump, mas é parte da própria estratégia de segurança do presidente. No entanto, é preciso perceber que, apesar do posicionamento claro contra a atividade cibernética estatal russa, o documento não faz qualquer menção às suspeitas quanto à interferência de Moscou na eleição americana de 2016.

A estratégia America First de Donald Trump está nas determinações – mais do que nos reconhecimentos – que ocupam este texto até aqui. A administração atual classifica Irã e Coreia do Norte como trapaceiros, colocando ambos como dois dos principais inimigos internacionais do EUA. Especificamente no caso iraniano, é uma mudança clara em relação ao posicionamento de Barack Obama, que apostava no engajamento com o país por meio do acordo sobre seu programa nuclear, enquanto Trump defende aumento do orçamento de Defesa e – America First – a “renovação do setor industrial (de Defesa) de forma a evitar a dependência de fornecedores estrangeiros para (a produção de) componentes-chave dos principais sistemas de armas do país”, posicionamento que se encaixa com o discurso de campanha e também deste primeiro ano de governo.

Ainda em busca de satisfazer a visão do presidente, os redatores encaixaram parte do “produtivismo”, a doutrina que rege o pensamento de Trump e para a qual dediquei um texto inteiro: entre outros aspectos, a ideia muito consolidada de que os EUA são sacrificados em sua liderança global e, por isso, igualmente explorados pelos demais atores: o sistema internacional (comércio e defesa dos valores ocidentais) seria, portanto, um fardo ao país que, ao contrário dos demais, estaria empenhado em manter equilíbrio e justiça em suas interações internacionais. Assim, o NSS estabelece a intenção de Washington mostrar mais assertividade em suas relações internacionais, uma vez que, de acordo com a linha de raciocínio da administração atual, a balança atual pesa demais aos americanos e caberá à política de segurança nacional buscar um meio do caminho justo de forma a confrontar os países que desafiarem este entendimento dos EUA.

De forma muito ampla, já é possível prever os caminhos que Trump irá seguir e aqueles que irá evitar. Mas é sempre importante deixar claro que o NSS é um documento obrigatório redigido a partir de uma exigência burocrática doméstica. A personalidade do presidente americano atual e seu grande apreço pelo Twitter são indicativos de que os posicionamentos contidos no texto não representam de nenhuma maneira uma estrada reta, muito pelo contrário. No entanto, em meio à imprevisibilidade de sua gestão, o texto é uma das raras peças estruturadas onde é possível pinçar elementos mais tradicionais de política externa.