Trump: a linha tênue que divide instituição e pessoa física

27 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky Por mais que os EUA ainda demonstrem interesse no Oriente Médio, as decisões e indecisões do país têm isolado Washington e suas intenções de mediação. Não me refiro apenas ao caso de Jerusalém, mas à percepção dos atores regionais e globais de que os americanos não detêm o monopólio da liderança nas grandes questões internacionais. Como tenho escrito por aqui, acho muito improvável que Trump aceite qualquer processo regional – especialmente no conflito israelense-palestino – sem sua participação, mas este é um caminho possível e que ganha adesão retórica e já está em aplicação logo ali ao lado, na Síria.

Nos escombros da vitória sobre o Estado Islâmico (EI), o apaziguamento, divisão, reconstrução e redesenho regionais carregam as impressões digitais de Vladimir Putin e de seus aliados Bashar al-Assad, Irã (e seu aliado Hezbollah) e, em menor grau, Turquia. Na esteira da declaração sobre Jerusalém, a Autoridade Palestina (AP) tentou emplacar o mesmo raciocínio. O problema para Mahmoud Abbas é que os EUA interpretam os dois conflitos de maneira distinta. Ou seja, a atual administração americana pode até querer se ver livre do processo de conclusão da Guerra Civil Síria e de tantas outras complexidades internacionais, mas não do conflito israelense-palestino – até pelo histórico de ações americanas sobre a questão e da atuação fundamental e pessoal de presidentes americanos recentes. Este é o limite estabelecido por Donald Trump também porque um de seus comparativos mais relevantes é justamente o paralelo entre sua capacidade e a de antecessores.

Hoje, na prática, os EUA estão isolados – por vontade própria, é bom que se diga –  de alguns dos mais importantes fóruns e assuntos mundiais. Superficialmente, é possível listar alguns deles, como o debate em torno do clima (e o consenso sobre o assunto entre as grandes potências, com exceção dos próprios americanos), a já mencionada resolução e reconfiguração do Oriente Médio diante da vitória sobre o EI (com exceção do conflito israelense-palestino), a liderança da Otan (delegada de forma pragmática por Washington a França e Alemanha), e a própria participação americana na ONU.

Escrevi sobre a Estratégia de Segurança Nacional (NSS, em inglês) divulgada pelo governo Trump. Como disse no texto, por mais que haja uma linha de pensamento que amarre o documento de maneira um pouco mais estruturada, existe um abismo prático entre suas diretrizes e a forma pessoal como o presidente Trump enxerga o mundo ao seu redor. Este é um dos aspectos mais importantes sobre a forma como ele governa e explica também a imprevisibilidade intrínseca a qualquer análise sobre suas decisões. Por mais que seu corpo administrativo tenha corrido atrás de criar um embasamento teórico sobre a visão de política externa e segurança em seu governo, a verdade é que a presidência Trump é marcada até o momento por uma profunda conexão entre pessoa física e jurídica, um dos pontos centrais da realidade atual em Washington e que costumo resumir na expressão “fator Trump”.

Ou seja, ao contrário de presidentes anteriores, os atos e opiniões de Donald Trump deixam evidente que ele faz pouca diferença entre a pessoa física anterior à presidência e a presidência como cargo institucional – possivelmente, o cargo de maior peso da humanidade. Um cargo cujo potencial de impacto internacional extrapola as fronteiras dos EUA e os cidadãos americanos.

Houve dois momentos fundamentais que chamaram atenção a este ponto: o primeiro deles quando o então pré-candidato democrata Bernie Sanders fez um alerta em entrevista na TV americana. Na ocasião, Sanders dizia que as declarações de Trump como pré-candidato eram tomadas como piada, mas deveriam ser levadas a sério porque ele poderia se tornar presidente. Estava certo. Pouco tempo depois, já eleito, Trump encontrou-se na Casa Branca com o presidente Barack Obama, seu desafeto histórico a quem acusou implacavelmente durante os oito anos anteriores, questionando-o inclusive em sua própria cidadania americana.  Na entrevista coletiva com os dois presidentes presentes, Trump declarou publicamente que se sentia honrado pelo encontro e ainda afirmou que esperava trabalhar com Obama no futuro, inclusive pedindo conselhos durante o mandato.

Apesar de as duas situações serem distintas (a declaração de Sanders e o encontro com Obama), ambas sinalizavam a possibilidade de dois olhares mais pragmáticos sobre e a partir de Trump: o primeiro, um alerta para que ele fosse levado a sério, inclusive em suas promessas de campanha; o segundo, uma visão institucional de Trump sobre a presidência americana. Ao mencionar respeito e honra pelo encontro com Obama, acenava também com a possibilidade de ações mais institucionais do que pessoais, seguindo a tradição presidencial do país – e, para ser franco, uma prática política internacional. Há diferenças notórias entre o comportamento de candidatos depois de eleitos, especialmente em cargos de grande projeção e impacto em democracias ocidentais.

Neste primeiro ano de mandato, Trump cumpriu promessas de campanha e foi coerente com seu discurso de candidato em assuntos de grande visibilidade, o que mostra um alinhamento profundo entro o candidato e o presidente. Esta é a razão pela qual há um grande choque a partir de seus atos, porque há muitas promessas de campanha cumpridas – promessas essas que, como alertou o senador Sanders durante a campanha, simplesmente eram consideradas pouco críveis porque partiam de Donald Trump, uma figura estranha ao jogo político tradicional e encarado como piada durante boa parte da corrida, mesmo durante a pré-candidatura entre os republicanos.

O isolamento americano, o corte de impostos para os mais ricos, o questionamento ao consenso sobre a importância do combate aos combustíveis fósseis, o relacionamento com os russos e tantos outros assuntos estiveram na pauta da campanha presidencial de Trump. E Trump presidente está tirando cada um desses assuntos da teoria e colocando-os em prática, alterando não apenas a tradição política americana, mas a própria maneira como os EUA interagem na arena política internacional.