Irã: sucesso internacional, fracasso doméstico

04 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky Ao contrário das manifestações de 2009 – que ficaram conhecidas como Revolução Verde –, os protestos atuais no Irã são menos concentrados na classe média urbana da capital Teerã e estão espalhados pelo país. Sua origem inclusive está na área rural. Como em 2009, apontar a corrupção governamental é parte do quadro mais amplo, mas temos agora um cenário em que o Irã é de fato uma potência regional com vitórias expressivas. Aí reside uma das grandes contradições apontadas pela população iraniana comum. 

O Irã que sustenta Bashar al-Assad na Síria, mantém o Hezbollah no sul do Líbano, arma o Hamas em Gaza, os rebeldes Houthis no Iêmen e tantos outros grupos militares xiitas no Iraque e na região não é o mesmo que apresenta poucas alternativas aos próprios cidadãos. Na Síria, as estimativas de gastos variam entre 6 a 20 bilhões de dólares na empreitada para manter Assad. Neste valor, estão incluídos também custos do repasse ao Hezbollah e a outras milícias em atuação no Oriente Médio. A plataforma de união xiita para estender o poderio iraniano do território nacional até o litoral do Mediterrâneo não tem conseguido solucionar o problema doméstico. 

No Irã, é preciso ter hoje 39 mil rials no bolso para comprar um dólar. O setor bancário deu calote e parte da população perdeu todas as suas economias. De acordo com Parviz Aghili, executivo-chefe do Middle East Bank, a reorganização bancária do país custaria entre 180 e 200 bilhões de dólares, cerca da metade do PIB iraniano. A estimativa é que 30% da população jovem do Irã estejam desempregados. E, para completar, David Goldman, do Asia Times, cita Issa Kalandari, assessor do Ministério do Ambiente, que deixou claro que 50 milhões de iranianos podem ficar sem abastecimento de água graças ao esgotamento de 70% do lençol freático e ao desvio precário realizado nos rios como forma de compensação. 

O cenário não é animador. Mas a ideia de que a população tenha voltado às ruas agora pode sim estar relacionada ao presidente Hassan Rohani. Ao contrário de Mahmoud Ahmadinejad, seu antecessor, Rohani é considerado um “liberal”. Lembrando sempre que a autoridade máxima do país é o aiatolá Ali Khamenei, o líder-supremo. A eleição do presidente nasce a partir do desejo expresso pela população por reformas e entendido pela cúpula do país como uma maneira de seguir adiante com o Acordo Nuclear realizado com os EUA e mais cinco potências internacionais. 

Os cidadãos comuns esperavam de Rohani a condução de uma política de abertura a investimentos internacionais e normalização de relações externas. A recondução do país à comunidade internacional gerou a expectativa de que, diante da impossibilidade de mudanças internas mais profundas, haveria uma maneira de conciliar o regime às demandas dos cidadãos comuns. Por ora, o cenário apresentado acima mostra que nada disso aconteceu. E enquanto a política externa assertiva segue consumindo metade do PIB, a população não percebe mudanças práticas na vida do dia a dia. 

Os iranianos enfrentam um dilema prático de difícil resolução. Precisam de um governo capaz de realizar reformas estruturais. No entanto, para que elas ocorressem, seria preciso abrir mão do projeto internacional ou ao menos reduzir os gastos no exterior de forma substancial. Mas, como atos valem mais que intenções, o governo deixa claro que dá preferência à política de expansão regional. 

A equação, portanto, não se fecha, na medida em que, mesmo discordando da atuação de sua liderança, os iranianos têm poucas expectativas de mudanças reais, uma vez que a cúpula governamental controla a vida política do país sem trégua desde 1979, o ano da “Revolução Islâmica”. O líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, avalia, aprova e veta inclusive os nomes dos candidatos à presidência. Os últimos que discordaram do resultado eleitoral de 2009 – Mir Houssein Mousavi e Mehdi Karroubi, ex-primeiro-ministro e ex-porta-voz do parlamento, respectivamente – cumprem prisão domiciliar desde então. Ou seja, para os iranianos que estão nas ruas, é muito improvável que haja reformas reais das instituições ou a revisão das prioridades governamentais.