Os objetivos da política externa do Irã

09 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky Nesta onda de protestos no Irã, o questionamento à política externa do país tem sido examinado pela imprensa internacional. No entanto, é preciso ser claro: além de ser muito pouco provável que o regime venha a ruir a partir das manifestações, é igualmente improvável que o governo e a cúpula iraniana reduzam sua atuação externa. Isso porque, desde 1979 – o ano da chamada “Revolução” Islâmica –, os aiatolás permanecem vigilantes e furtivos com os atores internacionais. As alianças são construídas em função de alguns objetivos permanentes que acompanham sucessivos governos iranianos desde então. 

O ponto principal é a manutenção do regime. Contando com a desconfiança internacional desde sua ascensão, os aiatolás trabalham desconfiados de aproximações externas – principalmente do ocidente – e aprenderam a continuar a existir apesar das sucessivas sanções. Como mostrei em meu último texto, as consequências dessas escolhas e do isolamento se manifestam na vida prática do país, sacrificando especialmente a população comum. Entretanto, tendo como premissa o ponto fundamental do país de manter sua estratégia internacional, não esperem que Teerã desista de seus objetivos. 

O regime trabalha com cinco princípios externos: expansão sobre Estados do Golfo e soberania sobre territórios em disputa; reforço do nacionalismo persa (isso é válido especialmente no interior das fronteiras do país); controle do fluxo de petróleo no Golfo Pérsico; encerramento da influência regional americana (a eleição de Donald Trump facilitou o trabalho); e garantia quanto à percepção de liderança iraniana entre a população muçulmana, inclusive entre os árabes. 

Os cinco itens litados acima dão um panorama do foco iraniano e da relação entre sua política externa e seus objetivos internos, mesmo econômicos. As disputas regionais estão mencionadas intrinsecamente na lista. Por exemplo, a disputa permanente com a Arábia Saudita, que se sente ameaçada pelos objetivos iranianos no Golfo Pérsico e também entre a população árabe. O armamento que Teerã destina aos Houthis no Iêmen tem como fundamento a disputa com os sauditas. O mesmo vale em relação aos interesses de liderança regional, também um dos objetivos da Arábia Saudita. 

Para atingir essas metas, o Irã trabalha com atores não-regionais, como os já mencionados Houthis, além de Hamas, Hezbollah e toda sorte de grupos menores. O interesse aqui é a permanente tensão com Israel, também estruturada em função de sua política externa. 

A questão israelense – e aí me refiro à própria existência do Estado judeu – é um ponto de união entre todos os atores regionais e aspecto bastante sensível e caro à população árabe  e islâmica comum. Negar o direito israelense e trabalhar com afinco para fragilizar as posições do país representam dois dos itens inflexíveis da estratégia de política externa iraniana porque encontram eco permanente na rua islâmica – que reverbera com frequência posições anti-israelenses moldadas pelo reforço de estereótipos antissemitas que também estão na base do discurso oficial iraniano. 

O regime do Irã faz uso corrente desta retórica e manipula os estereótipos antijudaicos sem temor, a ponto inclusive de ter clamado pela destruição de Israel em discurso oficial da ONU, em 2005, e também realizado um concurso de caricaturas sobre o Holocausto, no ano seguinte.  Como o regime percebe que este tipo de atitude não é rechaçado pela comunidade internacional – e ainda aclamado pela população islâmica em geral –, os sucessivos governos do país entenderam que este é um ponto inflexível de sua atuação. 

Além disso, a Guarda Revolucionária Iraniana realiza incursões externas, como o atentado terrorista contra a associação judaica Amia, em Buenos Aires, em 1994, que deixou 85 mortos. A política de Estado do Irã prevê este tipo de atuação. E tem agido desta forma sem maiores problemas. Como escrevi em meu último texto, o regime considera que tem sido bem-sucedido externamente, mesmo que as sanções sacrifiquem a população comum. 

Como a saída da crise doméstica prática (com todos os seus muitos fracassos, como escrevi) requer a reforma integral da estrutura de liderança e das instituições, o regime não cederá. Manterá suas alianças com atores não-regionais e continuará a seguir adiante com suas metas internacionais, fazendo uso dos métodos listados acima.