No berço da Primavera Árabe, novos protestos tomam as ruas

11 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky Novamente, as ruas da Tunísia voltam a ser tomadas por protestos e repressão. Desta vez, há um pensamento generalizado de que o movimento luta basicamente contra o aumento do custo de vida e o início de reformas econômicas. É importante ficar atento ao que ocorre no país, na medida em que, no final de 2010, um vendedor de frutas ateou fogo ao próprio corpo dando início à poderosa força política que na sequência ficaria conhecida como Primavera Árabe.
 
Vale deixar claro de pronto que as manifestações atuais não garantem de nenhuma maneira que uma nova onda de protestos irá se espalhar por todo o Oriente Médio e pelo mundo, como em 2011. 

No entanto, é preciso examinar a evolução dos acontecimentos. Quando a Primavera Árabe nasceu, justamente na Tunísia, a eclosão não foi massificada. Afinal de contas, já eram seis décadas de ditadura, sendo 23 anos sob a liderança do autocrata Zine El-Abidine Ben Ali. Aos poucos, o país estava envolvido e determinado a mudar a realidade política até que, em 14 de janeiro, Ben Ali fugiu rumo à Arábia Saudita. Da Tunísia, o movimento se espalhou para Egito, Líbia, Síria, mas sem obter os resultados positivos de seu local de nascimento. 

De lá para cá, a Tunísia conseguiu o feito raro de, num primeiro momento, conjugar democracia e islamismo político. Também realizou eleições democráticas pela primeira vez, em outubro de 2011, eleições presidenciais diretas (também inéditas no país) e até estabeleceu a chamada Comissão da Verdade e da Dignidade responsável pela investigação de crimes cometidos durante os 60 anos de ditadura. 

Agora, a população volta às ruas demandando melhorias econômicas e demonstrando desilusão com a elite política. E aí temos um elemento novo. 

Durante a Primavera Árabe, havia a expectativa do surgimento de novas lideranças. Entretanto, a impossibilidade da mera existência de oposição durante décadas de governos ditatoriais no Oriente Médio impediu que novas lideranças surgissem. Isso explica parcialmente a reversão dos movimentos populares no Egito, na Síria e na Líbia. 

No Egito e na Tunísia, grupos islâmicos mais organizados que atuavam clandestinamente (no Egito, a Irmandade Muçulmana. Na Tunísia, o Ennahda) rapidamente se articularam, participaram dos primeiros pleitos e venceram. Ao contrário do Egito, onde os militares aplicaram um contragolpe e tomaram o poder, a Tunísia prosseguiu com seu curso. Com problemas, evidentemente, mas o país manteve o rumo a partir da vitória obtida pela Primavera Árabe. 

Surge agora uma nova articulação, um grupo chamado Fesh Nestannew (em português, “O que estamos esperando?”) cujas demandas são “emprego, liberdade e dignidade nacional”. É uma nova aglutinação política – capaz de nascer apenas onde há alguma democracia, naturalmente. Os protestos atuais apresentam esta novidade na luta contra reformas econômicas exigidas pelo Fundo Monetário Internacional a partir do empréstimo de 2.9 bilhões de dólares concedido à Tunísia em 2016. 

Como não existe pureza cultural e é muito difícil precisar a verdadeira origem de manifestações (se é que isso existe), o momento atual do país remete à grande onda de protesto internacional que ficou conhecida como Occupy – ela mesma inspirada na Primavera Árabe. Já nesta segunda década do século 21, versões domésticas e com demandas particulares de Occupy se espalharam por 68 países, tornando-o o movimento de luta popular mais bem sucedido deste século.

Como berço da Primavera Árabe, a Tunísia pode novamente oferecer alguma novidade no cenário internacional. Depois de sete anos de relativa democracia e estabilidade, as manifestações atuais podem apresentar como consequência o surgimento de uma liderança popular, jovem e laica, o que seria uma enorme novidade regional. Mas é impossível prever neste momento se tudo isso irá varrer a região com uma nova onda de manifestações, principalmente depois da grande instabilidade dos últimos sete anos que causou o colapso da Líbia, o massacre na Síria (com a permanência de Bashar al-Assad na presidência) e a ascensão e queda do Estado Islâmico.