Abbas estica a corda com EUA e Israel

15 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky O discurso do presidente palestino, Mahmoud Abbas, reflete com precisão o momento de desarranjo no processo de paz entre israelenses e palestinos – o processo está estagnado desde 2014. Abbas optou por um texto que estica e pode mesmo arrebentar a corda com americanos e israelenses. Disse que o plano de paz articulado pelos EUA (representado em boa medida pelo genro e conselheiro sênior de Donald Trump, Jared Kushner) é “um tapa que será devolvido”, desejou a Trump que “sua casa seja demolida”, desfilou toda a sorte de teorias antissemitas sobre desconexão entre Israel e os judeus e, ainda, atualizou os Protocolos dos Sábios de Sião ao afirmar que “Israel importa assustadoras quantidades de drogas para destruir nossa geração mais jovem. (...) por esta razão criamos uma autoridade para combater as drogas e investir bastante em esporte, a maior parte em futebol. Por isso já passamos Israel (no ranking da) FIFA”. 

Esta viagem no tempo de volta ao século 19 é parte do encontro do Conselho Central Palestino, órgão que reúne 95 delegados em Ramallah, na Cisjordânia, e é responsável por determinar a estratégia futura palestina. O tom adotado pelo presidente Abbas tem como objetivo marcar posição diante da decisão americana do dia 6 de dezembro de 2017 que determinou o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. 

A ideia de Abbas é esticar mesmo a corda, não apenas como forma de abordagem aos assuntos externos, mas também na expectativa de encontrar apoio entre a população palestina comum, uma vez que a decisão americana foi amplamente rejeitada nas ruas e poderia reforçar os apelos mais radicalizados da oposição ao próprio Abbas, notadamente o Hamas e a Jihad Islâmica – ambos grupos paramilitares terroristas cujo propósito oficial não é a criação de um estado palestino ao lado de Israel, mas por cima de Israel. Hamas e Jihad Islâmica foram convidados a participar do encontro em Ramallah, mas preferiram não comparecer. 

Espremendo o discurso do presidente palestino, é possível perceber algumas mudanças de rumo: a primeira delas é a opção por se afastar da Casa Branca, podendo inclusive provocar a perda de 355 milhões de dólares doados pelos EUA à UNRWA (agência da ONU dedicada exclusivamente aos refugiados palestinos). O valor aportado em 2016 pelos americanos representa cerca de 30% do orçamento total da agência e perde-lo afetaria diretamente refugiados palestinos que vivem não apenas em Gaza e na Cisjordânia, mas na Síria, no Líbano e na Jordânia. 

Outro ponto importante do texto de Abbas diz respeito à opção por um estado binacional. Ameaça permanente a Israel, este caminho determinaria que os palestinos abririam mão de constituir um estado independente para se juntar a Israel – em função dos dados demográficos, se isso ocorresse Israel deixaria de existir como o único Estado judeu no mundo, na medida em que os judeus passariam a constituir a minoria da população. Rapidamente, no lugar de Israel, a nova entidade nacional se tornaria o 24º estado árabe. 

No entanto, esta possibilidade dependeria de Israel. Isso porque, na medida em que a Autoridade Palestina é reconhecida como Estado da Palestina em muitos organismos internacionais, ela precisaria de autorização israelense para se tornar parte de Israel. Da mesma maneira que, como exemplo, se o Uruguai abrisse mão de sua soberania para se tornar mais um estado brasileiro, o Brasil precisaria concordar com a atitude. Ao mesmo tempo, a decisão autoimplodiria a Autoridade Palestina, que deixaria de existir neste cenário. Isso sem contar a oposição de Hamas e Jihad Islâmica. 

De volta ao pronunciamento de Mahmoud Abbas, também ficou evidente a intenção de desqualificar os EUA como mediadores de um eventual processo de paz. Esta era uma posição óbvia e consequência direta do anúncio americano sobre Jerusalém. Para o presidente palestino – que apesar de todas as ofensas e teorias conspiratórias listadas acima ainda se mostrou interessado num acordo com base nas fronteiras de 1967 –, os EUA podem participar de negociações, mas desde que acompanhados de outros “quatro ou cinco” países numa conferência internacional. 

A medida sugerida por Abbas parece bastante razoável, mas ela já foi tentada. Desde 2002, o chamado Quarteto ficou encarregado de buscar uma solução pacífica para pôr fim ao conflito, mas não obteve sucesso. Formado por EUA, Rússia, União Europeia e ONU, esta coalizão de forças não conseguiu chegar a lugar algum. 

No final das contas, a estratégia palestina parece ser a de buscar caminhos para esvaziar a legitimidade americana. Seria uma tentativa de impedir que Washington obtivesse uma premiação depois da declaração sobre Jerusalém. Era uma consequência óbvia, mas que, na prática, não resolve o problema palestino. 

Por isso, este me parece ser um cenário de revanchismo temporário e, a não ser que a Autoridade Palestina realmente adote uma postura de mudança radical das regras do jogo – a busca por um estado binacional seria uma mudança drástica, por exemplo –, alguma forma de negociação deve ser encaminhada. A novidade pode ser a demanda por uma participação mais assertiva da Rússia, dando a Moscou o grande trunfo em sua empreitada pelo Oriente Médio.