Impasse orçamentário celebra o primeiro ano de Trump

22 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky Para celebrar um ano de governo Donald Trump nada mais apropriado do que a paralisação de serviços essenciais no país. O adiamento de repasse de salários a funcionários federais, o fechamento de parques e agências nacionais, a interrupção do trabalho de metade dos funcionários da Saúde, do Tesouro, da Defesa e dos Transportes são resultado da impossibilidade de democratas e republicanos chegarem a um acordo para promover a extensão do orçamento federal até o próximo dia 16 de fevereiro.

Em política, tudo está sob barganha. A situação atual é fruto da disputa entre os dois principais partidos americanos sobre o futuro dos chamados Dreamers, crianças que chegaram ilegalmente aos EUA e que hoje correspondem a um contingente de pouco mais de 700 mil adultos. Em 2012, o ex-presidente Barack Obama criou um programa para proteger este grupo de residente. O Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA) permitia que essas pessoas - que chegaram ao país com menos de 16 anos e viveram nos EUA de forma contínua desde 2007 - pudessem seguir com suas vidas, estudando, trabalhando e até servindo nas forças armadas.

A partir de março de 2018, o DACA expira e todos os Dreamers perderão o direito de permanecer nos EUA até o prazo final de março de 2020. Na prática, se nada mudar, serão deportados. Com isso, a disputa passou a protagonizar o impasse político nacional. Os democratas são favoráveis à extensão do programa. Donald Trump e parte dos republicanos, não. O presidente e congressistas de seu partido querem usar o debate em torno do DACA como forma de obter apoio em projetos de reforço no controle de imigrantes e até na construção do polêmico muro na fronteira com o México, promessa de campanha de Trump.

O líder democrata no Senado, Chuck Schumer – que se reuniu pessoalmente com Trump –, diz que o presidente já teria rejeitado dois acordos alcançados pelos partidos democrata e republicano em conjunto. A ideia de Schumer – e esta agora passa a ser a batalha doméstica nos EUA – é culpar Trump pela paralisação. Enquanto os republicanos, naturalmente, seguem caminho oposto.

O impasse precisará ser solucionado. Não apenas pelas razões óbvias, mas pelo o que as pesquisas de opinião pública apresentam e também pelo o que está em jogo no ano de 2018.

De acordo com levantamento da CBS News poll, 87% dos americanos são favoráveis à permanência dos Dreamers. Na medida em que a opinião pública doméstica enxerga Trump como o retrato do partido republicano, os congressistas da legenda têm um problema prático. No dia 6 de novembro, os eleitores irão às urnas para substituir 33 dos cem senadores e também eleger todos os seus representantes na Câmara dos Deputados (435 assentos).  

Trump não é alguém que esteja muito preocupado com o futuro do partido republicano, conclusão muito óbvia e difundida entre os congressistas americanos. O temor é que, do alto de sua incapacidade conciliatória, a rejeição interna ao presidente abale as expectativas eleitorais do partido – que hoje controla a Câmara e o Senado.

Outra pesquisa deixou os republicanos ainda mais temerosos sobre esta possibilidade. Estudo conduzido pela NBC News e Wall Street Journal mostra que 38% dos entrevistados estão dispostos a usar a eleição de novembro deste ano como forma de enviar uma mensagem de oposição ao presidente Trump. Pode parecer um número pequeno, mas é o percentual mais alto de eleitores a responder desta maneira desde que os democratas obtiveram maioria no Congresso em 2006.

Os republicanos têm grande interesse de encerrar a questão dos Dreamers o quanto antes. E este seria o raciocínio mais lógico também para Donald Trump. Se as eleições de novembro próximo se transformarem numa espécie de referendo pessoal sobre o presidente, o governo pode sair derrotado em muitas frentes. Se os republicanos perderem a maioria na Câmara e no Senado, a ideia de um impeachment em função da interferência russa na eleição presidencial de 2016 pode voltar com toda a força.

A política é um mar revolto. E o sucesso está alinhado também à popularidade. Hoje, Trump está mal avaliado. No início de seu segundo ano de mandato, tem 38% de aprovação; no mesmo período, Barack Obama tinha 49%. George Bush, 84% (ainda em função dos ataques de 11 de setembro do ano anterior); Bill Clinton, 55%; e Ronald Reagan, 48%.