A ofensiva turca contra os curdos no norte da Síria

25 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky No norte da Síria, na cidade de Afrin, a Turquia reforça a percepção sobre a qual já escrevi muitas vezes por aqui de que após a vitória sobre o Estado Islâmico (EI) as potências regionais e internacionais lutarão por desenhar as novas fronteiras não apenas da Síria, mas também de parte relevante do Oriente Médio. O ataque lançado pelas forças armadas turcas à cidade carrega muitos significados e intenções. 

O primeiro aspecto é o mais óbvio e que se repete com alguma frequência; a prioridade do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, de impedir que os curdos – estejam eles na Síria, na Turquia, no Iraque ou no Irã – obtenham vantagens políticas ou militares de forma a realizar conquistas territoriais. No passado recente, Erdogan buscou desqualificar o referendo por independência conduzido pelos curdos do Iraque. Agora, a batalha é contra o sucesso militar obtido pelos curdos na Síria, que durante o combate bem-sucedido contra o EI no país lutaram sob a sigla das Forças Democráticas da Síria (SDF). Entre seus membros, curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG), a milícia que cumpriu o papel em solo – entre outros aparatos militares, YPG e SDF foram treinados e receberam armamento norte-americano. 

Este aspecto é fundamental porque, entre as razões que levaram os turcos a lançar a ofensiva sobre Afrin, havia informações dando conta da intenção dos EUA de validar as forças militares curdas na vigilância da fronteira. Este contingente poderia chegar a 30 mil homens. Usada como uma das justificativas pela Turquia, especificamente esta informação foi negada pelo secretário de Estado americano, Rex Tillerson, apesar de ter sido desconsiderada por Ancara. 

Como tem sido comum neste novo Oriente Médio, a Rússia é a potência que mantém contatos com todos os atores. Os russos inclusive apoiam o Partido da União Democrática Curda (PYD), o braço político aliado à milícia YPG. E, neste novo cenário, é sempre importante lembrar que a Rússia controla o território sírio. Ou seja, é muito improvável que a Turquia tenha lançado sua ofensiva sem contar com a aprovação russa. E aí é preciso passar ao próximo ponto da análise: as razões russas para fechar os olhos diante de um conflito em potencial que pode ter como base um território que controla e onde passou a atuar, em 2015, justamente para pacificá-lo.

Pode parecer contraditório – e de certa maneira é mesmo – que Moscou “autorize” uma nova guerra entre duas partes com as quais mantém contato estreito e que o cenário para o confronto seja a Síria, país que os russos pretendem apaziguar. Mas o realismo político está na base das ações internacionais, e esta premissa é especialmente aplicável a uma liderança de grandes ambições como o presidente Vladimir Putin. 

A Rússia percebe o YPG e todo o movimento curdo na Síria como a parte que resta de aliados dos EUA em seu território – entenda-se o território como todo o novo Oriente Médio que os russos pretendem influenciar. Os curdos, portanto, seriam o resquício de um velho Oriente Médio, aquele do passado não tão distante onde os EUA davam as cartas. Desta maneira, para Moscou, uma guerra entre Turquia e as forças curdas obedece a um confronto por procuração com os EUA, modelo muito comum naquela região – o mesmo aplicado a Israel e Hezbollah, este último fazendo as vezes do Irã, por exemplo. 

Washington agora tem um dilema que pode tomar grandes proporções em sua desordenada política internacional desses dias. Se simplesmente recuar e deixar os curdos entregues à própria sorte no norte da Síria, certamente os EUA serão considerados traidores, na medida em que a aliança com as forças curdas pareceu interessante até o segundo seguinte à derrota imposta ao EI. Por outro lado, se optar por medidas mais assertivas, poderá iniciar um confronto com a Turquia, que, assim como os EUA, é membro da Otan. Imagino que a Casa Branca deve ter como objetivo a redução imediata das tensões entre as partes de forma a impedir que este dilema se concretize. 

Enquanto isso, mais uma vez, os russos assistem a tudo sem precisar fazer grandes esforços. E ainda contam com a posição permanente de mediação, podendo interromper o conflito enquanto reforçam a imagem de potência conciliadora. Um outro caminho que os russos podem seguir é o de permitir que os turcos prossigam com os ataques, enfraquecendo a demanda dos curdos, suas posições e ganhos militares, e, por consequência, rompendo um dos últimos laços que os americanos mantêm com o seu velho Oriente Médio. Seja como for, a situação a Moscou é tão confortável que as perspectivas envolvem resultados que podem ser classificados como satisfatórios, independentemente do que vier a acontecer.