A possibilidade de expansão da ofensiva da Turquia na Síria ameaça tropas americanas

30 de Janeiro de 2018
Por Henry Galsky Desde 2016, cerca de dois mil soldados americanos estão estacionados na cidade síria de Manbij, no norte do país. As tropas chegaram à cidade graças ao trabalho das Unidades de Proteção do Povo (YPG), a milícia curda que tem grande importância na vitória sobre o Estado Islâmico. A relação de assistência mútua entre curdos e americanos é um dos pilares da derrota do EI na Síria.

Manbij passa a ser importante principalmente por sua localização e pelo conflito no qual se vê envolvida. A cidade está a 100 km de distância de Afrin, onde desde o último dia 20 de janeiro tropas turcas atacam a YPG. Os americanos em Manbij foram alertados pelo ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, sobre a necessidade de deixar a cidade.

A ideia de um confronto por procuração entre turcos e americanos no norte da Síria é uma possibilidade. Já havia escrito sobre ela no texto anterior. O aviso oficial turco pode ser encarado como ameaça num tom mais elevado. A origem deste impasse está numa declaração dada pelo secretário de Estado americano, Rex Tillerson, quanto ao plano de Washington de alterar a atuação nas áreas das quais os terroristas do EI haviam sido expulsos, estabilizando-as por meio de treinamento da YPG – a milícia curda passaria, portanto, a coordenar tais esforços.

Os turcos imediatamente entenderam a mensagem como intenção americana de transformar os curdos da YPG em exército pacificador regional. A reação turca é até coerente com a política histórica do país, que se percebe em guerra permanente com os curdos há três décadas. Na medida em que o nacionalismo é a principal bandeira do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a sucessão de acontecimentos segue o caminho óbvio, ainda mais quando se sabe das intenções presidenciais de permanecer no cargo. A carta de ameaça curda ao território e estabilidade da Turquia é lugar-comum. Um presente a uma liderança que inclusive conseguiu virar o jogo no frustrado golpe de Estado ocorrido em julho de 2016.  

Numa época de “fatos alternativos” há agora muitas versões sobre as reações americanas diante deste cenário. Mesmo interessados em reduzir atuações militares internacionais – especialmente no Oriente Médio –, aos americanos não restam muitas opções a não ser tentar interromper a escalada. Em conversa telefônica entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan, a Casa Branca diz que o presidente americano teria “alertado o presidente turco sobre a expansão de sua ofensiva militar no norte da Síria, deixando claro que as ações poderiam levar a um confronto direto com as forças americanas”.

Já a presidência turca tem uma versão diferente sobre o conteúdo da conversa. Os turcos dizem que o presidente americano teria apenas ressaltado a importância de limitar a duração da ofensiva, justamente em função da presença de tropas dos EUA em Manbij, além de garantir que Washington iria interromper o repasse de armamento à YPG.

Há uma enorme diferença entre as declarações oficiais dos dois países. Enquanto a Casa Branca procura dar ênfase a um posicionamento mais assertivo de seu presidente, a Turquia segue caminho oposto. Ninguém sabe o que de fato é verdade quanto ao conteúdo do diálogo, mas, buscando alguma lógica na estratégia do governo atual dos EUA, é pouco provável que Trump tenha ressaltado, em tom de leve ameaça, a possibilidade de confronto entre as duas potências parceiras na Otan.

Na medida em que os curdos não são exatamente muito necessários neste momento, é possível que, de maneira muito pragmática, os presidentes turco e americano tenham alcançado algum tipo de ponto em comum. Isso não significa necessariamente um acordo para pôr fim à ofensiva, mas um entendimento mínimo sobre as consequências da ação para as tropas americanas em Manbij – o que ainda não descarta totalmente a possibilidade do confronto por procuração sobre o qual escrevi anteriormente e que voltei a mencionar neste texto.

A saída para os curdos sírios da YPG pode estar com Bashar al-Assad, que percebe de maneira evidente a Turquia cada vez mais próxima à Rússia. Erdogan é um crítico persistente do presidente sírio e, em função disso, Assad quer evitar que ele obtenha ainda mais ganhos estratégicos. Os curdos serviriam a Assad como forma de impedir que os turcos ganhassem terreno conectando os enclaves remanescentes de oposição ao presidente sírio em Idlib, Aleppo e Afrin.