Rússia corre para encerrar de vez a guerra na Síria

01 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky O Congresso Sírio de Diálogo Nacional realizado em Sochi, na Rússia, é uma demonstração ampla das alianças e do poder que Moscou construiu a partir da intervenção na guerra civil, em setembro de 2015. O projeto russo na Síria é certamente bem-sucedido, principalmente se levarmos em consideração o propósito inicial de derrotar o Estado Islâmico (EI). Há uma disputa narrativa – que já foi mais assertiva e hoje é mais discreta – entre EUA e Rússia sobre vencedores e vencidos. A discrição se deve a dois fatores fundamentais: Donald Trump e, claro, o fato de tropas russas estarem em solo, enquanto a participação americana se concentra majoritariamente na assistência aos grupos militares curdos. 

Até setembro de 2015, as potências mundiais não bancaram uma intervenção no país. Nem para derrotar o EI, nem para tirar o presidente Bashar al-Assad do cargo, mesmo depois de ele ter cruzado, dois anos antes, o que o ex-presidente Obama chamou de “linha vermelha”. O presidente Assad fez uso de armamento químico contra os próprios civis. Duas vezes. 

Vladimir Putin fez o que ninguém havia ousado fazer; interveio na Síria para derrotar o EI e, ao mesmo tempo, sustentar Bashar al-Assad na presidência. Enquanto isso, há investigações nos EUA para tentar provar o trabalho de Moscou na eleição de Donald Trump. Podem parecer ações desconexas, mas são complementares. 

Manter um aliado na Casa Branca disposto a reduzir a assertividade internacional americana é um sonho realizado para Putin. Mesmo agora, o governo Trump aceitou participar da conferência sobre a Síria em Sochi apenas como observador. É um endosso para o processo de diálogo na Síria conduzido por Putin. A atitude também pode ser interpretada como um resumo deste momento quanto à visão americana sobre o Oriente Médio. Há dez anos, seria improvável imaginar qualquer administração nos EUA assistindo passivamente ao grande evento de celebração da liderança russa na região. 

A conferência em Sochi está longe de ser unanimidade. Os pouco mais de 1,5 mil participantes não representam todos os setores envolvidos na guerra civil. Pelo contrário. O evento foi boicotado pela maior parte da oposição, como os curdos da milícia YPG (aliados aos americanos, mas inimigos dos turcos – que, por sua vez, passaram a aliados dos russos) e as Forças Democráticas da Síria (SDF). Mas, apesar disso, este evento mostra a força de mobilização e liderança de Moscou. 

Sochi complementa sete rodadas de negociação pelo futuro sírio já realizadas em Astana, no Cazaquistão, e que evidenciam a ampla rede de alianças construída por Putin; além dos grupos sírios, estavam presentes em todos os encontros (os de Astana e o realizado em Sochi) os novos protagonistas deste Oriente Médio: Irã, Turquia e, claro, muitos membros do governo de Bashar al-Assad. 

A posição oficial de Irã, Turquia e Rússia sobre o futuro da Síria é muito clara. Qualquer solução a ser encontrada não passa de maneira alguma pela mudança de regime. Ou seja, Bashar al-Assad, mesmo apesar de seu histórico – inclusive os ataques com armamento químico contra os próprios civis –, deverá permanecer no cargo até 2021, quando uma nova “eleição presidencial” deverá ocorrer. E, se não bastasse, os três países aliados do presidente sírio argumentam que ele deve concorrer também neste novo pleito. 

A Rússia corre para concluir todo este processo. E isso significa, portanto, redigir uma nova constituição mantendo Assad à frente do governo pelo menos até 2021. Na verdade, o “rascunho” deste documento já foi redigido pelos próprios russos em 2016. A ideia de Vladimir Putin é unificar seus projetos doméstico e internacional o quanto antes. A “Pax Russa” em seu melhor cenário se conclui em grande estilo com a aprovação de uma nova constituição síria, a reeleição de Vladimir Putin como presidente no próximo mês de março (estendendo seu mandato até 2024) e com a seleção nacional campeã mundial de futebol, vencendo o Brasil na final da Copa, em 15 de julho.