O imperialismo capitalista chinês

06 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky A primeira-ministra britânica, Theresa May, cumpriu sua primeira visita oficial à China. A líder política da Grã-Bretanha corre para abrir novos mercados e estabelecer alternativas diante da decisão do país de deixar a União Europeia (UE). O anúncio de acordos comerciais entre as potências está na casa dos 13 bilhões de dólares. Pode parecer muito dinheiro, pode parecer que os chineses precisam deste tipo de relacionamento bilateral com os britânicos. Mas a verdade é que a China não estava tão preocupada assim com os valores. O propósito da visita de May para o governo de Beijing é mais político do que financeiro. 

Enquanto a primeira-ministra se deliciava com o chá local afirmando que seu sabor é o mesmo de Londres, os chineses planejam a mudança das rotas de comércio mundial de forma a inverter a mão da ordem política estabelecida. A ideia da China era contar com a aprovação de Theresa May para seu projeto mais ambicioso. Chamado de Belt and Road Initiative (Iniciativa do Cinturão e da Estrada, em tradução livre) a ideia dos chineses é usar três de suas principais características de forma a realizar grandes investimentos econômicos em infraestrutura em toda a Ásia, Oriente Médio, no leste da África e chegar até à Europa. 

O propósito é ambicioso e, como mencionei acima, conta com três das principais características do país: sua grande dimensão territorial, sua população gigantesca e sua capacidade econômica cujas decisões estão centralizadas no Estado. É até estranho dizer isso, mas é o Estado chinês que aplica com rigor o principal mandamento do filósofo e pai do capitalismo, Adam Smith: a administração governamental por meio do Partido Comunista Chinês (PCC) investe pesado na produção de forma a gerar mais riqueza. 

A intenção é criar uma nova rota da seda, construindo pontes, estradas, linhas férreas, portos, oleodutos, conectando a China à Europa por meio da Ásia Central e do Oriente Médio. A empresa de consultoria privada McKinsey informou ao jornal britânico The Guardian que “o projeto tem potencial de ofuscar o Plano Marshall americano”. O planejamento chinês envolve 65% da população global e 33% de seu PIB. A expectativa é que o investimento seja da ordem de 900 bilhões de dólares. Este é um passo definitivo e que diz muito sobre como o PCC entende o capitalismo. E este plano ganha força justamente no momento em que os EUA retraem suas atividades na Ásia. 

A vitória chinesa sobre os americanos numa das principais rotas comerciais do mundo terá impactos diretos sobre a política e o estabelecimento da ordem global para além do século 21. É evidente que o projeto chinês pretende alterar a história do comércio internacional. E, para isso, um dos artifícios é simples. Enquanto países com grandes populações e infraestrutura precária – como Paquistão e Bangladesh, por exemplo – irão se beneficiar do projeto, a conta vai chegar a partir das cortes arbitrais. Este é um dos pulos do gato. 

Eventuais e inevitáveis disputas comerciais serão todas regulamentadas por cortes internacionais estabelecidas nas cidades chinesas de Beijing, Xian e Shenzhen. Esses tribunais de arbitragem e mediação irão funcionar de acordo com as regras aplicadas pelas instituições chinesas já existentes. Imaginem uma disputa internacional entre uma empresa chinesa e uma empresa estrangeira. Lembrando, claro, que a China ainda está longe de ser uma democracia. Pois é. A vitória comercial chinesa e sua preponderância internacional dependem diretamente dessas cortes arbitrais.

Se todo este planejamento soa capitalista demais, é bom deixar claro que o governo chinês planeja que 2050 seja a data final para que o país finalmente realize a promessa que os membros do PCC fizeram quando da fundação do partido, em 1921: tornar-se uma sociedade socialista. A dominação comercial asiática e internacional é o meio capitalista que o PCC encontrou para cumprir o prometido.