O relacionamento secreto - mas nem tanto - entre Israel e os países árabes

09 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky Washington Post e New York Times publicaram informações quanto à cooperação entre Israel e Egito. A aliança pragmática e muitas vezes fria entre os dois países mudou de vez. E, de acordo com as publicações americanas, israelenses e egípcios mantêm intercâmbio intenso. A grande novidade seria o auxílio que as Forças de Defesa de Israel (IDF) estariam prestando aos vizinhos na Península do Sinai, onde teriam realizado mais de cem ataques contra terroristas do Estado Islâmico (EI) com a autorização do presidente do Egito, o general Abdel Fatah al-Sisi.

A ofensiva israelense em território egípcio tem como objetivo impedir que os terroristas do EI conquistem o território e transformem-no em base de atuação permanente que poderia servir também como plataforma para lançamento de mísseis e operações contra o Estado judeu. Ao contrário da curva de derrota do grupo na Síria e no Iraque, a situação é distinta na Península do Sinai. Em novembro passado, os terroristas realizaram um ataque contra uma mesquita sufi, matando 311 pessoas. Dois anos antes, em 2015, foi o mesmo grupo estabelecido no Sinai que derrubou um avião comercial russo, causando a morte dos 264 passageiros a bordo. 

A cooperação entre israelenses e egípcios é tão intensa que Jerusalém autorizou inclusive a quebra de uma cláusula dos Acordos de Camp David assinados em 1978 e que estabeleceram reconhecimento mútuo entre os dois países. Os acordos previam que a Península do Sinai deveria ser uma zona desmilitarizada. Mas Israel tem permitido aos egípcios alocar tropas nesta região de forma a intensificar o combate ao EI local. 

De qualquer maneira, o relacionamento de confiança entre Egito e Israel aponta para uma importante mudança no cenário regional. Hoje, não apenas o Egito e a Jordânia – que já assinaram acordos de paz com os israelenses – mantêm cooperação com Jerusalém, mas há sinais cada vez mais claros, embora ainda não admitidos abertamente, de aproximação entre o Estado judeu e países árabes, especificamente as monarquias do Golfo Pérsico.
 
No centro desta novidade estão as alterações regionais em curso ao longo deste século 21. A disputa entre israelenses e palestinos ainda representa um aspecto fundamental no imaginário da população árabe e muçulmana. No entanto, os governos árabes – e vale sempre reforçar, as lideranças das monarquias sunitas do Golfo Pérsico – têm mostrado interesse em se aproximar de Israel de maneira pragmática. 

A ascensão do Irã, do islamismo político, dos atores não árabes do Oriente Médio e do terrorismo sunita (casos de al-Qaeda e EI) estão na base desta mudança. O aprofundamento das rivalidades entre sunitas e xiitas, as intenções de virada do jogo promovidas pelo eixo xiita (que hoje conta com Irã, Turquia, Rússia, Hezbollah, Hamas e flerta com o Qatar) passaram a representar, de maneiras distintas, uma ameaça a Israel e às monarquias do Golfo. A aproximação se deu por essas razões. Hoje, Israel é uma potência não apenas militar, mas tecnológica, médica e científica. As circunstâncias regionais e o protagonismo militar e civil israelense acabaram por reduzir o papel exercido pelo conflito entre Israel e os palestinos no processo de tomada de decisão das monarquias sunitas. 

Mas isso não representa de forma precisa o quadro mais amplo em relação aos palestinos. As ditaduras árabes sempre fizeram uso da questão palestina e do repúdio a Israel como forma de desviar a atenção de suas próprias populações. A Primavera Árabe e, apesar dela, a manutenção das ditaduras sunitas – aliadas às circunstâncias regionais que tiraram esses mesmos regimes do foco – serviram como atenuante ao temor original dos governantes. As respectivas populações civis ainda não conseguiram concretizar o projeto de, como num dominó, derrubar as ditaduras árabes regionais. 
 
E é possível que, diante do fracasso humanitário na Síria (cuja instabilidade inicial se originou a partir de um movimento popular de contestação, tal como os demais países por onde a Primavera Árabe passou) e do sucesso “revolucionário” apenas relativo na Tunísia, esta intenção popular fique adormecida por muitos anos. Portanto, administrar as crises domésticas continua a ser possível. Usar a questão palestina e repudiar publicamente Israel continuará a ser uma carta na manga das lideranças árabes como forma de manobrar pontualmente qualquer novo e raríssimo foco de contestação interna.
 
Entrevistado pelo Wall Street Journal, um membro do alto-escalão do governo da Arábia Saudita resumiu como seu país avalia a aproximação com Israel e a solidariedade aos palestinos: 

“A questão palestina não é fácil. A Arábia Saudita pretende manter a liderança islâmica e não vai abandonar (este projeto) facilmente. E, se você precisar de Israel em qualquer coisa, consegue fazê-lo de qualquer maneira, sem ter um relacionamento”, disse. 

Ou seja, na medida em que há assuntos em comum, os sauditas pretendem contar com a cooperação de Israel, desde que isso seja mantido sem segredo. A ideia, portanto, é continuar a atuar da mesma maneira: a solidariedade aos palestinos e o repúdio a Israel serão públicos; o relacionamento pragmático com Israel, privado. Do ponto de vista israelense, parece valer a pena. No entanto, resta saber até quando o Estado judeu continuará a aceitar exercer o papel de vilão enquanto provê informações fundamentais a esses mesmos regimes que condenam o país publicamente.
 
E, para além deste aspecto, há também a política interna em Israel. A coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pretende ampliar seu relacionamento com os países árabes, antes mesmo de resolver o conflito com os palestinos. Parte da oposição pensa de maneira oposta, priorizando uma maneira de solucionar o conflito palestino primeiro. De qualquer forma, um amplo acordo de Israel com os países árabes do Golfo seria uma grande vitória para Netanyahu. E ele quer aprofundar esses laços, de preferência antes das eleições previstas para o ano que vem e como forma de mudar a pauta nacional, onde o primeiro-ministro enfrenta manifestações públicas de opositores.