O pedido de indiciamento de Benjamin Netanyahu

15 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky Já escrevi extensamente sobre as acusações que pesam sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Um novo capítulo sobre a relação do líder israelense com empresários –  a quem classifica apenas como amigos de longa data – ganhou força nesta semana, a partir da recomendação policial de indiciamento por suborno e quebra de confiança. Agora, a avaliação sobre o inquérito ficará a cargo do advogado-geral do país, Avichai Mandelblit, que decidirá se indiciará ou não o primeiro-ministro. Mandelblit foi indicado para o posto jurídico mais alto de Israel justamente por Netanyahu.

O inquérito é confuso e há muitas intepretações sobre os fatos. A acusação indica que Netanyahu teria recebido presentes do produtor de Hollywood Arnon Milchan, que também é cidadão israelense, e do empresário australiano James Packer. A família Netanyahu teria ganho joias, champanhe e charutos cujo valor total é estimado em cerca de 280 mil dólares.

O primeiro-ministro não nega o benefício, mas argumenta que mantém relação de amizade antiga com Milchan e Packer. A acusação argumenta que os presentes se deram como parte de suborno em troca da interferência pessoal do líder israelense em assuntos de interesse dos amigos. E aí é que a situação de Netanyahu começa a se complicar. Durante o julgamento, a acusação deverá mostrar que a logística em torno do envio desses presentes envolvia a articulação burocrática de funcionários do primeiro-ministro, como assistentes, motoristas e secretários, descaracterizando, portanto, os argumentos principais da defesa quanto a agrados mútuos e desinteressados em âmbito particular de amizade.

Arnon Milchan estaria bastante empenhado em pedir a ajuda de Netanyahu na aprovação de uma lei que daria ao produtor – na condição de cidadão israelense que retorna ao país – isenção fiscal de centenas de milhões de shekels. Neste ponto, há um conflito de interesse, mas também a exposição política do primeiro-ministro.

Ex-ministro das Finanças e líder do partido de oposição Yesh Atid, Yair Lapid é testemunha de acusação. Lapid, que pretende substituir Bibi no cargo, deverá argumentar que impediu a aprovação da lei em nome do interesse nacional. Lembrando que, num sistema parlamentarista, como é o caso de Israel, as alianças e fidelidades mudam na velocidade das possibilidades existentes no horizonte político.

Lapid surgiu como um fenômeno político. Seu partido foi o segundo mais votado nas eleições de janeiro de 2013 e, em março daquele ano, o Yesh Atid aderiu à coalizão do Likud, a legenda de Netanyahu. Dois anos mais tarde, o quadro mudou e Yair Lapid foi para a oposição, tornando a legenda que fundou a principal rival do Likud. Yair Lapid é, portanto, parte muito interessada no indiciamento do primeiro-ministro.

Por ora, Netanyahu não é obrigado a renunciar. Deverá fazê-lo se for condenado pela investigação conduzida pelo advogado-geral, mas somente após o veredicto da Suprema Corte, o que significa também que o primeiro-ministro terá direito a recurso.

O processo deverá levar meses, e Bibi deve permanecer no cargo para, em setembro deste ano, superar David Ben Gurion como o primeiro-ministro a permanecer por mais tempo a liderar o Estado judeu, justamente no ano em que o país comemora 70 anos desde sua independência.