O confronto entre Israel e Irã alcança novo patamar

19 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky Legenda da foto: primeiro-ministro de Israel apresenta parte do suposto drone iraniano abatido após invadir o espaço aéreo do país

Em setembro de 2017, escrevi num texto sobre o agravamento das tensões regionais no Oriente Médio a partir do processo de encerramento da Guerra Civil Síria. Diante da vitória do eixo xiita, todos os demais atores regionais buscavam acomodação pragmática. Esta conclusão é especialmente válida em relação ao olhar de Israel e Jordânia sobre a situação em território sírio. Já no segundo semestre do ano passado, israelenses e jordanianos procuravam obter garantias de russos e americanos sobre como seria definida a presença de tropas estrangeiras que conseguiram sustentar o presidente Bashar al-Assad no cargo e reivindicavam naquele momento a premiação pelo esforço militar. O ponto fundamental para israelenses e jordanianos – mais para os israelenses – sempre esteve voltado para os detalhes em torno da permanência do Irã e das milícias xiitas na Síria.

Esta lembrança sobre o que escrevi em setembro de 2017 é fundamental para a compreensão dos acontecimentos que se iniciaram na semana passada quando um drone iraniano – um veículo aéreo não-tripulado – invadiu o espaço aéreo de Israel. Na sequência, um conflito curto, mas de grandes proporções: a destruição do drone por um helicóptero militar de Israel, a punição israelense atingindo não apenas a base móvel iraniana de onde o drone foi lançado em Palmira, na Síria, mas também realizando o maior ataque aéreo sobre as forças militares sírias desde a Primeira Guerra do Líbano, em 1982, além de alvos militares iranianos baseados na Síria.

O desdobramento do confronto resultou no abatimento de um caça israelense pelos sírios – a primeira aeronave israelense perdida desde a Segunda Guerra do Líbano, em 2006 –, causando uma enorme onda de comemorações infundadas pelo governo de Bashar al-Assad (faço esta ressalva simplesmente em função de um dado estatístico. Houve mais de cem ataques israelenses a comboios iranianos em passagem pelo território sírio com destino ao Hezbollah, no Líbano. A perda de uma aeronave é, portanto, percentualmente irrelevante). De qualquer maneira, a sucessão de eventos – invasão do drone, resposta e novos ataques aéreos – marca não somente uma escalada incomum, mas também inaugura a era de embates militares diretos entre Irã e Israel, dois inimigos regionais cujos propósitos são incongruentes e se anulam mutuamente. Voltarei a este ponto adiante.

A questão que se apresenta por ora envolve algumas dúvidas: o que o drone iraniano fazia no território israelense? Era uma missão de reconhecimento, uma provocação vazia visando justamente ao episódio de confronto ou a ideia era deixar claro que estamos diante de uma nova fase do conflito? É pouco provável que o moderno drone iraniano tenha servido apenas como isca para Israel. Se este fosse o propósito, os iranianos enviariam um modelo ultrapassado, não o Shahed 171, veículo que especialistas em armamento creem se tratar de uma cópia do drone de espionagem americano RQ-170 Sentinel capturado pelos iranianos em dezembro de 2011.

O fato é que o episódio de confronto foi contido, mas seu entorno aponta alguns sinais importantes: o primeiro deles diz respeito aos russos. O embate foi encerrado por ora a partir de um telefonema do presidente russo, Vladimir Putin, ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Supostamente, Putin teria compreendido as razões de Netanyahu para contra-atacar, mas também teria pedido que o líder israelense se empenhasse em impedir que tropas e infraestrutura russa fossem atingidas pela retaliação.

Outro aspecto importante – além da obviedade de que é Putin e não Trump quem dá as cartas neste novo Oriente Médio, como sempre repito por aqui – é que publicamente a declaração oficial emitida por Moscou condenava tão somente a “intervenção israelense na Síria”. Ou seja, não houve uma única menção à presença do drone iraniano sobre o espaço aéreo de Israel. Neste novo Oriente Médio, a Rússia não faz a menor questão de esconder suas fidelidades.

O contra-ataque israelense foi forte. O que muita gente chama de desproporcional. A intenção parece realmente ter sido essa. Diante deste novo cenário regional, a ideia em Jerusalém era deixar claro a sírios, iranianos e russos que a resposta de Israel sempre será muito superior aos ataques que vier a sofrer. Os israelenses não apenas realizaram o maior ataque ao território sírio em 36 anos, mas também destruíram cerca de metade das defesas aéreas de Bashar al-Assad.  O propósito de Jerusalém parece ser o de criar – ou de deixar ainda mais evidente – seu grande poder de dissuasão.

Em agosto de 2017, americanos e russos concordaram com o estabelecimento de “zonas de segurança” nas fronteiras entre Síria e Israel e também entre Síria e Jordânia. Rússia e EUA chegaram a um formato que consideravam ideal em que “forças armadas de elementos estrangeiros” seriam impedidas de entrar nessas regiões cuja extensão seria de 20 quilômetros. Por “forças armadas de elementos estrangeiros” entenda-se o Irã, claro. Na ocasião, Israel considerou o texto frágil e pediu mais garantias, mais distância de suas fronteiras. O episódio do drone parece deixar evidente que o compromisso assumido em 2017 não alcançou seus objetivos iniciais.

Por alguma razão, os iranianos estão se sentindo confiantes o bastante para mudar o formato de disputa. No lugar da tradicional “guerra por procuração” – quando se valiam da aliança com a milícia xiita libanesa Hezbollah para entrar em atrito com Israel –, mudaram o patamar, evidenciando a disponibilidade de confrontar os israelenses diretamente. Pode ser um teste de Teerã sobre as respostas que Israel está disposto a dar, pode ser realmente um momento de confiança, mas pode ser também um sinal de desespero diante dos acontecimentos domésticos.

No momento atual, em que a população iraniana contesta diretamente o regime nas ruas apesar (e por causa de) todo o aparato de repressão, criar um atrito com o inimigo mais óbvio pode ser um modo de buscar uma causa nacional para unificar o país. Quem ousaria internamente questionar o aiatolá Ali Khamenei durante um confronto com Israel? O problema para a República Islâmica é que esta iniciativa pode custar um preço alto.

Aplicando um olhar pragmático, nem israelenses, nem iranianos estariam interessados numa guerra aberta. Ambos teriam muito a perder, seja qual fosse o “vencedor” deste eventual conflito. Mas é sempre importante lembrar que o regime iraniano existe e depende de fatores ideológicos, não pragmáticos. Num ambiente muito ideologizado – e que flerta permanentemente com o messianismo, como expliquei em outro texto, leia aqui – a percepção de que a areia está por escorrer pelas mãos (com a pressão popular sobre o regime) pode ser um catalisador no processo de tomada de decisões. E uma guerra contra Israel é o caminho mais óbvio, não o mais fácil, claro.

Para encerrar, sempre é válido lembrar como Irã e Israel percebem os acontecimentos regionais e quais seus objetivos mais amplos. O Irã pretende e está caminhando com sucesso para a formação de um arco levando influência, armamento e sua própria presença militar numa extensão territorial contínua entre seu território e o Líbano. A presença iraniana nas fronteiras de Israel é parte deste projeto e já foi alcançada no sul do Líbano, graças ao Hezbollah, em Gaza, a partir da parceria, financiamento e exportação de armamento ao Hamas, e, por fim, no lado sírio das colinas de Golan.

O projeto israelense é aumentar a segurança de suas fronteiras, para isso os acordos de paz com Egito e Jordânia são fundamentais, da mesma forma que, naturalmente, a interrupção dos objetivos iranianos. Não foi possível fazê-lo no sul, em Gaza, e tampouco foi possível ter sucesso no norte, em função da presença do Hezbollah no sul do Líbano. E aí há os impactos regionais inclusive no processo de paz estagnado com os palestinos.

Em 2000, Israel deixou o sul do Líbano, onde, por 22 anos, controlou cerca de 18km de extensão territorial. Depois de sair do território, o Hezbollah ganhou força, apropriou-se da região e transformou-a em base de ataques principalmente ao norte de Israel. Em Gaza, depois de 38 anos, os israelenses também saíram, também dando ao Hamas a oportunidade de transformar a região em base de lançamento de mísseis. Por isso, é improvável que Israel deixe o Golan ou aceite que os iranianos obtenham as mesmas vantagens estratégicas de Hezbollah e Hamas. Este é o cenário atual. E, com o posicionamento reduzido dos americanos no jogo do Oriente Médio, os israelenses entenderam que ou dependem da boa vontade dos russos na contenção de seus aliados do eixo xiita ou será preciso agir de forma unilateral.