Rússia busca reequilibrar seu posicionamento no Oriente Médio

22 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky Para encerrar por ora a análise sobre o episódio recente de confronto militar entre Israel, Síria e Irã, é importante observar também o papel da Rússia, a nova protagonista regional protetora e partícipe do eixo xiita. Os russos estão em território sírio desde setembro de 2015, lutando e vencendo a guerra sobre os grupos rebeldes a Bashar al-Assad. Ao lado da milícia curda YPG – embora o YPG lute com os americanos, por ora – são os responsáveis também pela vitória sobre o Estado Islâmico (EI), efeito colateral da presença de suas tropas no país.
 
A guerra contra o EI foi eclipsada pelos objetivos estratégicos de Moscou: manter Assad como presidente da Síria para, em função da aliança histórica que a Rússia mantém com esta poderosa família do Oriente Médio, garantir a permanência e a garantia sobre a infraestrutura russa construída no país. Este raciocínio é especialmente aplicável ao Porto de Tartus, ativo de extrema relevância a Moscou especialmente quando os portos da Rússia têm seu funcionamento comprometido em função do congelamento provocado pelo rigoroso inverno no território russo. A saída para o Mediterrâneo na Síria – e aí está o principal valor de Tartus – passa a ser de extrema importância.

Mas, além do mundo concreto, há também a intenção de retomar o protagonismo “soviético” de outros tempos. O retorno à política imperial não é monopólio de Moscou, mas está no centro de atuação de alguns dos atores desta disputa e, curiosamente ou não, é parte do discurso e do foco de dois dos principais aliados de Vladimir Putin na Síria: o Irã em sua busca pelo mito original persa (e em busca pela concretização de planos de expansão contínua entre o território iraniano e o Líbano), e a Turquia, com menções e sonhos de retomada do vigor e do poder de influência do Império Otomano. 

Há neste processo um caminho histórico curioso: enquanto no final do século 19 e início do 20 os impérios pouco a pouco deram lugar aos estados nacionais, agora há um interesse particular pelo retorno ao mito imperial – e aí existe uma mistura entre o interesse pela construção e afirmação identitária, mas também justificativa para expansionismos. Ou ambos, como no caso russo, por exemplo. 

No entanto, muito além do reconhecimento de seus pares de eixo xiita, a Rússia mantém relação de flerte e repulsa com o Ocidente – a quem Putin acusa com alguma frequência de estar por trás da tentativa de isolar e alijar seu país do processo de interação global, muito em função do protagonismo de Moscou na Ucrânia, da anexação da Crimeia e das sanções ocidentais aplicadas posteriormente. Para isso, por mais que de fato os russos liderem sem disfarces este eixo xiita, o Kremlin se pretende mediador legitimado. A verdade é que a Rússia já exerce esta função, na medida em que, no Oriente Médio atual, é a única a se relacionar diretamente com todos os atores, sejam eles os membros do eixo xiita ou sua oposição regional – as monarquias do Golfo Pérsico e Israel.
 
Assim, ao mesmo tempo em que os eventos de confronto direto – mas limitado – entre Israel, Irã e Síria representaram uma ameaça concreta ao tênue e quase inexistente equilíbrio formal entre os estados nacionais, também possibilitaram a Putin demonstrar e exercer o poder que construiu ao longo desta segunda década de século 21. Telefonou ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para interromper a resposta do Estado judeu ao drone iraniano que invadiu seu território. E, simultaneamente a todo este cenário – que de fato poderia resultar num confronto de maiores proporções –, iniciou um processo de propaganda ampla quanto à capacidade de mediação da Rússia. 

Em Moscou, os russos realizaram uma ampla conferência intitulada “Rússia no Oriente Médio: atuando em todos os campos” (foto). Além da obviedade do nome deste encontro, é preciso dizer que ele contou com a participação de membros da sociedade civil e de estudiosos reconhecidos, além de figuras do alto escalão dos governos regionais. Numa das rodadas de discussões, o ministro das Relações Exteriores do país, Sergey Lavrov, fez uma declaração inesperada e cujo conteúdo se enquadra bem no tema desta análise:

“Declaramos muitas vezes que não aceitamos as declarações de que Israel, como um estado sionista, deve ser destruído e apagado do mapa. Eu acredito que esta é uma maneira absolutamente errada de avançar nos próprios interesses”, disse. 

A declaração pública de uma figura do alto escalão da Rússia ganha peso não apenas pela objetividade, mas também pelo momento e também pelo ambiente em que ocorreu. Entre tantas autoridades presentes, um chamava mais atenção: o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif. Desde 2008, quando o então presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, declarou que “Israel deveria ser varrido do mapa” durante discurso oficial na Assembleia Geral da ONU, outros tantos membros de governo e oficiais iranianos seguiram o mesmo caminho e corroboraram esta afirmação várias vezes sem qualquer constrangimento.

A opção russa de negar de maneira contundente este lugar-comum da política externa iraniana recente carrega intrinsecamente alguns significados. Lavrov também disse, na mesma conferência, que se opõe às tentativas de ver qualquer problema regional através do prisma da luta contra o Irã". 

É evidente que as declarações estão conectadas e correspondem a recados diretos a Irã e Israel. Os russos, portanto, querem não apenas salvaguardar seus interesses e ganhos obtidos na Síria, como também pretendem evitar o confronto de grande capacidade destrutiva entre iranianos e israelenses. 

A ofensiva diplomática pública da Rússia – posterior ao episódio de confronto entre Israel, Irã e Síria – não é isolada. As declarações de busca por equilíbrio de Sergey Lavrov foram acompanhadas de posicionamento ainda mais contundente, desta vez do vice-embaixador russo em Tel Aviv, Leonid Frolov:

 "No caso de uma agressão em relação a Israel, não só os EUA vão ficar ao lado de Tel Aviv, mas a Rússia também. Muitos compatriotas nossos moram aqui em Israel. Em geral, Israel é um país amistoso, por isso não aceitaremos qualquer tipo de agressão contra ele". 

Pois é. Num governo centralizado em torno do presidente Vladimir Putin, é pouco provável que as declarações de Lavrov e Frolov sejam desconhecidas ou correspondam a manifestações meramente pessoais e espontâneas dos dois membros do governo. Parece-me evidente um movimento de manifestação pública para buscar equilíbrio, evitar a escalada de confronto, reafirmar-se como mediador confiável e, acima de tudo, preservar os esforços militares dos russos na Síria. 

A eclosão de um conflito mais amplo envolvendo todos os aliados da Rússia contra Israel não faria sentido neste momento, justamente quando os russos começam a colher os frutos do trabalho no país, inclusive aumentando sua presença econômica. No último dia 15, Síria e Rússia assinaram um memorando de cooperação para a restauração de infraestrutura de petróleo e gás. A reconstrução da Síria não pode ser garantida apenas pelo capital russo, portanto será preciso também incluir os ocidentais, além dos tradicionais aliados do eixo xiita. Assim, imaginar um eventual isolamento de Moscou pelo Ocidente a partir de sua atuação na Síria poderia pôr em risco todo o esforço desses últimos dois anos e meio. 

E este já é um período delicado aos russos. Além das investigações sobre a interferência do país nas eleições americanas estarem bastante adiantadas, o processo de vitória definitiva sobre o EI e também sobre os grupos rebeldes a Bashar al-Assad tem custado um preço alto. Os ataques russos e de Assad têm provocado grande número de mortes de civis – o que causa alguma repercussão internacional e críticas de organismos de proteção a direitos humanos. Se isso não fosse o bastante, forças pró-Rússia atacaram uma base das Forças Democráticas da Síria (SDF, em inglês), grupo de oposição ao presidente sírio, provocando retaliação dos EUA – aliados do SDF. O contra-ataque americano provocou a morte de 300 russos. 

O risco de um confronto entre americanos e russos nunca foi tão grande. A ideia, portanto, de abaixar a temperatura local é de grande interesse de Moscou, que precisa solucionar o conflito de vez de forma a obter as vantagens que procurava quando decidiu se aventurar no Oriente Médio. Ficar na Síria para perder infraestrutura, homens, recursos, provocar uma guerra direta com os americanos e se isolar ainda mais do processo de interação global não vale a pena. Essas são as razões pelas quais o governo russo decidiu adotar uma nova estratégia neste momento.