A crise em Ghuta Oriental e a novidade que a Rússia pretende apresentar

27 de Fevereiro de 2018
Por Henry Galsky O Conselho de Segurança da ONU conseguiu aprovar de forma unânime uma resolução que pede um novo cessar-fogo na Síria. A decisão só foi possível graças aos eventos que ocorrem em Ghuta Oriental, no subúrbio da capital Damasco. O território guarda grande similaridade com as periferias das cidades brasileiras, apresentando um tecido social de pobreza econômica que mistura propriedades agrícolas familiares a favelas. A guerra síria e todas as suas consequências militares agravaram a situação.

Como tem sido comum nas guerras do Oriente Médio ao longo deste século, há muita confusão e acordos de bastidores. Talvez poucas ocasiões representem tanto este quadro quanto os acontecimentos na Síria, em especial neste momento. No caso de Ghuta Oriental, a grande imprensa apresenta duas narrativas: a dos russos – que garantem o presidente Bashar al-Assad no cargo e estão no país desde 2015 –, para os quais o enclave terrorista no subúrbio de Damasco precisa ser sufocado; e a dos “rebeldes”, um termo que já não deveria mais ser usado uma vez que, no imaginário ocidental, ele assume muitos significados, exceto o dos grupos que estão em Ghuta.

A oposição a Assad que luta contra a Rússia em Ghuta é composta por diversas fidelidades (assim como ocorre em toda a extensão da Guerra Civil síria). Os dois principais grupos “rebeldes” em atuação em Ghuta Oriental são o Islam Army (Exército do Islã) e seu rival Faylaq al-Rahman. Ambos estão em permanente disputa de poder entre si. Não são grupos de universitários bem-intencionados ou movidos por ideologia libertária, mas milícias armadas interessadas em interpretações radicais religiosas patrocinadas pelos atores regionais estabelecidos. O Faylaq al-Rahman é apoiado, por exemplo, pela Frente Nusra, antiga aliada da al-Qaeda na Síria.

As condições humanitárias em permanente declínio em Ghuta precipitaram a aprovação da resolução na ONU. Além dos constantes bombardeios russos, esses grupos “rebeldes” também impõem uma série de restrições aos civis, punindo-os de maneira permanente por julgamentos sobre comportamento “inapropriado” e demonstrações de apoio a rivais. Esses opositores também mantêm os moradores reféns, monopolizando o comércio de comida e medicamentos – similar ao modo de operação das milícias no Rio de Janeiro, por exemplo. 

Por sua vez, a Rússia só aceitou aprovar a resolução no Conselho de Segurança porque conseguiu mencionar no texto que o cessar-fogo não seria aplicado a “grupos, entidades e indivíduos associados à al-Qaeda, EI, bem como outras organizações terroristas designadas pela ONU”. Isso tudo garante aos russos a possibilidade de permanecer em combate em Ghuta Oriental, deixando dúvidas sobre os corredores humanitários e proteção à população civil. O que já não tem ocorrido. 

Lembrando sempre que, como escrevo, a Rússia está na Síria para garantir Assad e a própria infraestrutura construída ao longo das décadas de apoio mútuo entre Moscou e a família Assad – primeiramente a parceria com o pai, Hafez, e depois com o seu filho, Bashar. 

O foco da atuação de Vladimir Putin é a retomada do controle integral do território. Por isso está em cima de Ghuta Oriental. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, já declarou que imagina uma solução como a aplicada em Aleppo. Na ocasião, em dezembro de 2016, “rebeldes” e civis foram retirados em comboios da cidade depois que a força aérea russa e milícias xiitas financiadas pelo Irã venceram a oposição a Assad. 

A questão é que um inquérito posterior mostrou que cerca de 30 mil civis deixaram a cidade sem que fossem consultados – portanto, russos e milícias xiitas apoiadas pelo Irã realizaram teriam realizado o crime de guerra que recebe o nome de “deslocamento forçado”.

Há muitas variáveis na guerra síria e, como de costume, os civis são os que pagam o preço mais alto. A dificuldade de solução carrega uma característica presente em todos os conflitos do Oriente Médio desde o início deste século: a guerra não-convencional em que grupos terroristas de diversas fidelidades se agregam para lutar contra exércitos convencionais.
 
O presidente Vladimir Putin quer apresentar uma novidade na Síria ainda não conhecida neste século: a possibilidade de vitória de uma potência internacional – aliada igualmente a grupos terroristas, como o Hezbollah, por exemplo – sobre este concerto de forças que luta em busca do próprio martírio.