A Síria no centro das relações internacionais

02 de Março de 2018
Por Henry Galsky A situação na Síria é de alta complexidade porque está em curso uma disputa internacional no território do país que, com a passagem do tempo, deixa cada vez mais evidente o distanciamento do interesse dos atores envolvidos com a derrota do Estado Islâmico.  Como o poema de Carlos Drummond de Andrade, o EI é uma fotografia na parede. 

No campo de batalha, temos a Síria centralizando como um imã as rivalidades regionais patrocinadas, em maior ou menor grau, pelas duas superpotências, Rússia e EUA. Como já escrevi tantas vezes, do lado russo estão Irã, Bashar al-Assad (e seu ciclo simpatizantes e fieis apoiadores locais), Hezbollah, Hamas e Turquia. Cada um deles tem agenda própria, mas dois – os dois estados nacionais – pleiteiam objetivos muito claros. 

O Irã quer a expansão rumo ao ocidente. Quer finalmente estabelecer um arco conectando de maneira contígua o país ao Mediterrâneo, no Líbano. Assim, pretende influenciar ainda mais a população árabe e, como estratégia permanente em busca da liderança entre a rua árabe, pressionar ainda mais Israel. 

Os turcos – personalizados na figura de seu homem-forte, o presidente Recep Tayyip Erdogan – pretendem realizar o projeto de retorno ao mito original otomano. No entanto, a guerra na Síria trouxe ao país o fantasma sempre presente de emancipação curda. O temor quanto a realização nacional do Curdistão permeia o imaginário local – sempre fortalecido pelo nacionalismo de Erdogan. 

Mesmo assumindo papéis distintos, EUA e Rússia entraram no jogo graças ao desmembramento do Estado sírio a partir da guerra civil de 2011. Em comum, apesar das divergências, ambos entenderam rapidamente que a falência da Síria deveria ser evitada a todo custo, na medida em que processos semelhantes já haviam ocorrido localmente com resultados catastróficos (Líbia e Iraque). A partir deste ponto, russos e americanos seguiram por caminhos opostos. 

A Rússia temia a dissolução de sua própria infraestrutura construída na Síria. Temia a perda da parceria com a família Assad e, por consequência, o acesso ao Mediterrâneo (entre outros pontos já abordados nos textos anteriores). Por isso, aglutinou-se a atores não árabes locais (com exceção de Hezbollah e Hamas), mas insatisfeitos com o status-quo da liderança americana. 

O eixo xiita se tornou de certa maneira mais um desdobramento do antigo “movimento dos não alinhados”. As aspas que coloquei no termo são para deixar claro que este é um paralelo muito superficial. As diferenças entre os nã0-alinhados e o eixo xiita são mais profundas. 

A Rússia pôs os pés e as mãos na Síria para prevenir o esvaziamento de infraestrutura e posicionamento estratégico, mas também considerou que investir na manutenção de Assad, na derrota do EI e na liderança do eixo xiita poderia significar mudança de patamar político e diplomático. 

A vitória traria o Oriente Médio como área de influência direta, retomando o mito do poderio soviético, além de aumentar ainda mais a carga de elementos em seu relacionamento com a Europa. A protagonista do Oriente Médio e vitoriosa na luta contra o grupo terrorista mais temido do século 21 (até agora) credenciariam Vladimir Putin como liderança mundial legítima e requisitada. De sancionadores do governo russo e dos aliados de Putin, os europeus passariam a credores. 

A interrupção da crise na Síria reduziria o temor europeu de atentados em suas capitais. Também reduziria o fluxo de imigrantes, uma questão delicada aos governos da União Europeia. 

O problema para os russos é que nem tudo correu como planejado. Contar com um aliado como Donald Trump na Casa Branca representava um fato novo e de poder desconhecido. No entanto, a partir do momento em que as investigações internas nos EUA levam a crer que os russos exerceram papel principal na influência sobre as eleições americana, o próprio Trump precisa criar fatos que contestem esta narrativa. Para isso, a defesa de seus advogados talvez não seja suficiente. Talvez seja preciso se contrapor diretamente à Rússia. E aí a Síria volta para o jogo. O monopólio do eixo xiita é ameaçado. 

No último dia 7 de fevereiro, as forças americanas na Síria partiram em defesa de seus aliados, as chamadas SDF (Forças Democráticas da Síria), grupo de oposição a Bashar al-Assad e, por consequência, aos russos. Há bastante confusão entre o que ocorreu em seguida. Se foram dez ou 200 mortos do lado russo. Se eram soldados do país ou membros de grupos privados – mercenários – em atuação no território. O fato é que americanos e russos se enfrentaram diretamente na Síria. Isso, por si só, já significa muito. 

Neste quadro que apresento ao longo do texto, fica claro que o plano russo está em revisão. Putin imaginava que seria capaz de conquistar uma vitória plena. Também pensava que seria possível continuar com as conversas no Congresso Nacional de Diálogo Sírio de forma a alcançar termos finais. A Síria seria um troféu para ilustrar o sucesso militar e diplomático da Rússia a e de Vladimir Putin, em particular. 

Há poucos sinais de que a Guerra Civil síria tenha chegado ao fim. Não há perspectivas quanto à recuperação integral do território. Os americanos – associados à milícia curda síria YPG – não parecem disponíveis a tirar os curdos da jogada. Muito pelo contrário. Em função disso, apesar da discrição americana recente no Oriente Médio, os acontecimentos deixam claro que, pelo menos por ora, os objetivos de Washington e Moscou voltaram a ser opostos – excludentes, inclusive.