A vitória da Rússia sobre os EUA na Síria

06 de Março de 2018
Por Henry Galsky Em meu último texto, comentei sobre objetivos antagônicos de Rússia e EUA na Síria. O foco dos russos é claro e envolve principalmente manutenção de infraestrutura, retomada do protagonismo internacional, punição e cerceamento a sanções europeias e isolamento americano numa região que Washington conseguiu manter como área de influência até este século. O jogo mudou.

Do lado americano, a Síria se tornou mais uma das experiências de gestão internacional afetadas pelos eventos do século 21. As perdas humanas, financeiras e as trágicas consequências geopolíticas se acumularam nos últimos 18 anos.

Tais resultados negativos incluem a invasão ao Iraque – e o consequente estado de semifalência do país –, a inaptidão de reconstrução nacional democrática do Afeganistão e do próprio Iraque; o nascimento do Estado Islâmico; a falência da Líbia após a derrubada e morte de Muamar Kadafi; a grande dificuldade de atuação durante e depois dos eventos que ficaram conhecidos como Primavera Árabe; e, por fim, a desestruturação da Síria.

Sob interpretação americana, este último ponto se subdivide ainda em perdas que não se concluíram, como a incapacidade de retomar a relevância regional de Washington; a impossibilidade de buscar articulação internacional para responder a dois ataques com armamento químico promovidos por Bashar al-Assad contra a própria população civil; o estado de isolamento a partir da decisão russa – e do protagonismo que se seguiu – de entrar na guerra ao lado de Assad; e, por fim e por ora, a construção de alianças locais cujo peso não é capaz de conter os avanços e vitórias do eixo xiita liderado pela Rússia.

A disputa entre EUA e Turquia pelo controle de Afrin, no norte da Síria, é um exemplo prático das diferentes estratégias e forças em disputa pelo território. Em janeiro deste ano, a Casa Branca anunciou que treinaria 30 mil curdos da Síria na formação de uma força de defesa da fronteira norte do país. A decisão afetou diretamente os interesses regionais da Turquia, membro do eixo russo, mas também da Otan.

Os turcos consideram a causa curda assunto de segurança nacional. Lutam contra o projeto nacional curdo desde 1984 e tratam o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) como organização terrorista. A partir daí, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que se vale de agenda nacionalista permanente, ordenou incursão militar em Afrin – a Operação Ramo de Oliveira. A decisão de Erdogan recebeu amplo apoio popular dos cidadãos da Turquia.

Com dois mil soldados na Síria e a aliança com as Unidades do Povo Curdo (YPG) – grupo também enfraquecido na construção de redes de relacionamento regional –, os EUA não foram capazes e não se empenharam com a plenitude de sua força militar para evitar a execução do plano do eixo xiita liderado pela Rússia. Desde janeiro, o espaço aéreo de Afrin já estava sob controle de Moscou.

De acordo com primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, Afrin está cercada. O plano paralelo montado pelos russos se constituía como armadilha criada por atores que entendem e têm ao seu lado outros agentes locais. O temor curdo das forças turcas era tamanho, que a Rússia se dispôs a um acordo com os curdos. Em julho de 2017. Os curdos se mantiveram desinteressados. Continuaram a apostar na parceria com os americanos – a parceria estratégica que, na prática, amparava-os com dois mil soldados dos EUA na Síria.

Pouco mais de seis meses depois da oferta russa, os turcos, os principais inimigos dos curdos, cercam a cidade. Os curdos têm, portanto, três caminhos a seguir: enfrentar as forças turcas apoiadas pelos russos, que mantêm o espaço aéreo fechado; torcer para Donald Trump enviar mais tropas americanas (o que é absolutamente improvável); ou voltar atrás e negociar com os russos para evitar os turcos. Mais uma vitória russa.

Ou seja, outro exemplo da eficiência da complexa rede de alianças russa em seu propósito de retomada integral do território sírio em oposição à frágil posição de curdos e americanos na Síria.

Os curdos em seu projeto nacional têm apoio apenas dos americanos. Uma situação bastante vulnerável, mesmo que os EUA estejam mirando os avanços territoriais do Irã apoiado por Moscou. Já Vladimir Putin tem à disposição toda a sorte de milícias xiitas financiadas pelo Irã, além do próprio estado iraniano, a Turquia, o Hezbollah e o Hamas. Afrin é hoje um exemplo muito evidente do desequilíbrio de forças no Oriente Médio. E da vitória estratégica da Rússia na Síria.