Na Itália, uma vitória dos que gritam mais alto

09 de Março de 2018
Por Henry Galsky Depois das eleições italianas, há um temor – justificado – de que o país inicie um processo de guinada à extrema-direita. A maré da agenda anti-imigratória e eurocética não é novidade, especialmente nos últimos dois anos.

No entanto, assim como em boa parte dos países parlamentaristas, a situação na Itália é para lá de complicada. No teatro político nacional, os protagonistas são um jovem de posições radicais e um partido – o mais vitorioso dessas eleições – fundado por um comediante.

Aqui no Brasil as discussões sobre o ano eleitoral giram em torno de muitos temas: Lula, Bolsonaro, a suposta “nova política” e a possibilidade de surgimento de um nome de fora dos círculos partidários tradicionais. Pois é. Na Itália esta discussão está em curso, mas já foi capaz de provocar resultados políticos muito relevantes.

Em 2009, o comediante Beppe Grillo decidiu fundar um movimento que levasse as pessoas comuns aos cargos políticos. O Movimento Cinco Estrelas, de Grillo, é um dos grandes vencedores nas eleições atuais.

Mesmo no impasse parlamentar local, O M5E conquistou a maior parte dos votos, 32,22%. A novidade apresentada pelo movimento transformado em legenda é que ele conta com membros de diversas vertentes ideológicas, não se apresentado como de direita ou esquerda. Além do fundador Grillo, o rosto do partido é sua liderança atual, o jovem de apenas 31 anos Luigi di Maio.

Outro jovem político sai como vitorioso das urnas; Matteo Salvini. Líder da Liga – sim, é o movimento separatista Liga Norte – e que assumiu o partido em 2013, quando as eleições legislativas deram à legenda apenas 4% dos votos. Agora a situação é completamente diferente. Cinco anos depois, as discussões italianas e europeias se encaixam perfeitamente na pauta da Liga. Sem constrangimento, Salvini declarou sobre os imigrantes: “tem havido uma onda de delinquentes e eu quero enviá-los para casa, do primeiro ao último”.

Na complexa arquitetura parlamentarista, a terceira colocação no percentual de votos recebidos significa muito para a Liga. Como o partido é parte de uma coalizão de centro-direita e extrema-direita, a Liga certamente terá protagonismo no processo decisório italiano (a coalizão formada por Liga, Força Itália e Irmãos da Itália soma 35,98% dos votos, mais até do que os 32,22% recebidos pelo M5E, o partido mais votado).

A força da direita e da extrema-direita reside não apenas nos quase 36% de votos recebidos, mas nos pontos em comum que a coalizão encontra justamente com os vencedores.

Mesmo fazendo de tudo para evitar rótulos tradicionais e ideológicos, o Movimento Cinco Estrelas se sustenta sobre alguns pilares e ideias defendidos pela coalizão de direita. Todos esses partidos são favoráveis à renda básica universal, impostos fixos e redução da idade de aposentadora.

É o oposto, portanto, das medidas que vinham sendo tomadas pelos governos de centro-esquerda – as legendas desta matriz ideológica e política foram as principais derrotadas nas urnas. Em conformidade às exigências da União Europeia (UE), seguiram com aumento de idade de aposentadoria e reformas trabalhistas. São medidas claramente impopulares. A punição veio nas urnas.

A questão em torno da imigração é mais um ponto relevante. Todas as disputas políticas europeias nos últimos dois anos tiveram como ponto de discussão o acolhimento ou não dos refugiados. A diretriz italiana tem sido a de resgatar as balsas e pequenas embarcações que cruzam o Mediterrâneo diariamente. A Itália é o primeiro destino de boa parte dos imigrantes.

Há que se considerar que este questionamento da política tradicional e o apoio a discursos de rompimento com o sistema de maneira ampla (os votos dados ao M5E) e de crença profunda no nacionalismo como resposta (os votos dados à Liga) são parte do jogo recente. Encontram representação no mundo todo, casos do fenômeno Brexit e da vitória de Donald Trump nos EUA. No entanto, é importante dizer que, apesar do alerta, não estabelecem narrativa única da extrema-direita.

Na França, Emmanuel Macron conseguiu impedir a vitória de Marine Le Pen; na Alemanha, apesar dos impasses na formação de sua coalizão, Angela Merkel é favorita a conquistar o quarto mandato como chanceler em 14 de março.

A grande vitória da direita e da extrema-direita está relacionada à agenda política: impulsionada pela crise da primeira década do século, pelo terrorismo que conseguiu realizar ataques em território europeu, e pelo grande fluxo de refugiados, seus representantes retomaram o protagonismo e muitos deixaram os esgotos em que habitavam desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

No cenário atual, o sinal é de que as pessoas comuns querem soluções para essas questões. A direita e a extrema-direita têm obtido sucesso porque, entre outros aspectos, gritam mais alto e são mais assertivos nesses assuntos.