O encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un

13 de Março de 2018
Por Henry Galsky O programa nuclear da Coreia do Norte funciona sob dois aspectos fundamentais para a dinastia Kim Jong (avô, pai e agora filho): é um garantidor da existência e continuidade deste regime muito particular e isolado; e também é uma cenoura presa a uma vara de pescar na frente dos cavalos. Nesta metáfora, os cavalos são as potências internacionais, especialmente as potências ocidentais e, em particular, os EUA.

Sucessivas administrações americanas fizeram todos os esforços para desmantelar o programa nuclear norte-coreano. Rodadas de negociações, conversas de bastidores, projetos complexos envolvendo outros países, como as chamadas Six Party Talks (Negociações entre seis partes, em tradução livre) que buscavam reintegrar a Coreia do Norte à comunidade internacional a partir do encerramento de seu programa nuclear – e que contavam com a participação dos EUA, além da própria Coreia do Norte, Coreia do Sul, China e Rússia.

As Six Party Talks vigoraram entre 2003 e 2009, quando Pyongyang abandonou o fórum e, no ano seguinte, revelou diretamente a cientistas americanos a existência de uma grande instalação destinada a enriquecer urânio.

No entanto, a ideia de novas negociações entre EUA e Coreia do Norte pode ser retomada diante de uma novidade revelada pelo presidente americano, Donald Trump. Na última semana, ele recebeu um convite para visitar o ditador Kim Jong-un em Pyongyang. O encontro deve ocorrer em maio. O convite partiu do ditador norte-coreano e foi entregue a Trump por um intermediário da Coreia do Sul.

Antes de mais nada, é preciso reconhecer o óbvio. Esta é uma vitória inquestionável da administração americana. É uma vitória inquestionável também da política de pressão máxima exercida pelo presidente dos EUA sobre o regime norte-coreano. O convite de Kim chega também cercado pela aceitação de pré-condições: o congelamento dos testes de lançamento de mísseis e a promessa de que Pyongyang não irá responder à realização de exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul. Ainda mais elementos neste momento de conquista diplomática de Trump.

Dito tudo isso, é importante deixar absolutamente claro que a partir daí nada garante que os americanos conquistarão seus objetivos durante e depois deste encontro. Os norte-coreanos também têm muito a ganhar.

A cerimônia que irá ocorrer para marcar a reunião entre os líderes dos dois países confere de maneira óbvia a legitimidade internacional buscada por Kim e pelos seus familiares que o antecederam. Há um raciocínio correto aplicado pelos norte-coreanos que envolvem a manutenção do regime; só foi possível chegar até esta época histórica sem a unificação da Península Coreana – e consequente queda da dinastia Kim Jong – graças ao temor do arsenal nuclear.

Portanto, a liderança norte-coreana sabe que seu programa nuclear é fundamental para a própria existência enquanto país independente e que segue sob a égide de seu ditador. Por isso, é pouco provável que após o encontro com Trump ocorra o anúncio de que a Coreia do Norte esteja disposta a encerrar o programa nuclear – e este será o foco da delegação americana.

Talvez os norte-coreanos estejam dispostos a recomeçar o processo de aproximação internacional. A estratégia histórica do regime tem sido justamente esta; no momento em que Trump subiu o tom e ameaçou fazer uso da maior força militar do mundo, a Coreia do Norte correu para enviar o convite. A ideia de Kim Jong-un – bem-sucedida, aliás – foi a de neutralizar um ataque americano. A partir da perspectiva de um encontro direto, esta possibilidade está, naturalmente, descartada por tempo indeterminado.

O programa nuclear e o programa de mísseis de longo alcance estarão no centro das conversas entre os dois líderes. Trump tem muito a oferecer, como alívio das sanções, reinserção na comunidade internacional e até um acordo de paz.

Em troca, Kim Jong-un terá apenas de se comprometer a verificações periódicas de inspetores. Por ora, inclusive, não precisará abrir mão de nada do que sua dinastia conquistou em 70 anos, como as alianças com outros regimes alijados da comunidade das nações, o patrocínio ao terrorismo internacional e o fornecimento de suprimento para a produção de armas químicas – inclusive as usadas por Bashar al-Assad na Síria contra opositores e civis.

Para Donald Trump, este é o auge de sua estratégia internacional desde que assumiu o cargo. O convite de Kim Jong-un é uma validação de sua política de pressão máxima e quebra de barreiras – tomando decisões sempre temidas pela diplomacia tradicional. Para o presidente americano, era melhor que este intervalo entre o convite do líder norte-coreano, o anúncio de sua aceitação e a realização do encontro durasse para sempre.